terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Graça e cor nos rótulos das cervejas artesanais

Designers desenvolvem obras de arte a partir de referências que vão do pop e o grafite ao impressionismo e surrealismo

Por Ludmilla de Lima, Paula Autran, rodrigo Bertolucci e Simone Candida

Yumi e Bruno: responsáveis pela reformulação dos rótulos de cervejas artesanais (Fernando Donasci / O Globo)

RIO - Gordelícia, Cacildis, Sporro, F#%*, Olívia IPAlito... Citados assim, numa mesa de bar, esses nomes poderiam soar como os de cachaças. Mas os rótulos cheios de graça e de cor, além do conteúdo das garrafas, cada vez mais tornam as cervejas artesanais inconfundíveis. Num mercado que cresce em doses cavalares, destacar-se é tarefa não só para bons cervejeiros, como também para designers criativos que desenvolvem verdadeiras obras de arte a partir de referências que vão do pop e o grafite ao impressionismo e surrealismo. Não por acaso, este ano, a Cervejaria Colorado, de Ribeirão Preto, lançou o Prêmio Randy Mosher de Design de Rótulos, para valorizar as criações nacionais e incentivar a proximidade entre artistas e desenhistas com o setor, como acontece em outros países. O americano é considerado o mestre do design de rótulos cervejeiros.

— Calculamos que haja no Brasil cerca de 300 pequenas cervejarias legalizadas. De uns cinco anos para cá, começou a crescer o mercado de cervejarias artesanais, graças a fatores como a ascensão da classe média, que passou a viajar e a provar outros sabores, voltando mais curiosa e empreendedora. O número cresce não só nos estados do Sudeste, mas no Acre, no Amazonas... — contabiliza Marcelo Carneiro, dono da Colorado e presidente da Associação Brasileira de Microcervejarias (ABM), com 80 associados e criada há cerca de um ano, que é a reedição de uma entidade criada em 2002 com apenas seis cervejarias, que acabou extinta. — Tínhamos que ser diferentes do mainstream, que quer agradar a todo mundo. A cerveja artesanal quer exprimir uma ideia, alcançar um nicho. Há as que têm imagem mais ligada ao rock, ao universo retrô, à tradição alemã, às tatuagens... Os nomes são escolhidos para agradar a estes nichos.

De acordo com estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 75% das empresas que investiram em design em suas embalagens registraram aumento de vendas. No mundo das cervejas, a receita vitoriosa vem sendo seguida. E os criadores bebem muito da fonte americana de design de rótulos.

— Até pela época em que foram criadas, as inglesas e alemãs têm rótulos mais tradicionais, assim como a própria bebida. Já as americanas são mais criativas na mistura de ingredientes e se valem de elementos da cultura pop, de Hollywood, dos quadrinhos, de Roy Lichtenstein e Andy Warhol em suas embalagens. Elas trouxeram gás novo para as cervejarias do mundo inteiro — avalia o designer e diretor de arte Bruno Couto, responsável pela reformulação dos rótulos da carioca 2cabeças e da paulista Invicta, que produz a 1000 IBU, uma Imperial IPA (de estilo mais amargo).

IBU é a escala internacional de amargor da cerveja, explica Bruno, e o paladar humano não consegue perceber algo superior a uns 100 IBUs. A Invicta, que no início usava monumentos de Ribeirão Preto em seus rótulos, queria uma cara nova para a 1000 IBU. E a garrafa ganhou uma ilustração alusiva ao seu conteúdo: um soco, que dá ideia de potência, desenhado por Yumi Shimada, que já fez quase dez rótulos desde 2012:

— A ideia foi do Bruno. E eu sugeri tatuar os dedos com o nome da cerveja — diz a publicitária.

DUPLO SENTIDO E SARCASMO: MARCAS NACIONAIS

O duplo sentido, comum às cachaças, também é um recurso muito utilizado para batizar os produtos.

— A Saison à Trois remete a um ménage à trois, com seis pés entrelaçados. E foi um ménage cervejeiro, pois a cerveja é feita pela Invicta com a 2cabeças — conta Bruno, para quem o duplo sentido ter tudo a ver com o estilo do brasileiro. — Também fizemos a Unbranded beer: linha especial sem marca, com um X branco em um quadrado preto no lugar do rótulo.

A elegância da cerveja artesanal Jeffrey Niña (Divulgação / Joao Francisco)

Segundo o designer Robson Vergilio, que dá cursos e presta consultoria para cervejarias, os rótulos aqui começam a ter características próprias, além do jeito sarcástico e brincalhão:

— A tipografia é mais descontraída, e há a preocupação de facilitar a leitura. Usam-se pouco as letras em estilo gótico, e há mais nomes em português. O consumidor tem que saber falar o nome de sua cerveja.

CONCURSO DE DESIGN REÚNE 78 MARCAS

Há opções para todos os gostos, e três delas foram premiadas como as melhores disponíveis no mercado no I Concurso Randy Mosher de Design de Rótulos, que aconteceu em Blumenau, no Festival Brasileiro da Cerveja, em março deste ano, e contou com o próprio Randy no corpo de jurados. No total, concorriam 78 rótulos de 26 cervejarias. O primeiro lugar geral ficou com a Double Vienna, da Cervejaria Morada, cujo nome pode ser lido até de cabeça para baixo. Em segundo, chegou a Grand Cru, da Cervejaria DUM, que usa como referência a arte surrealista do belga René Magritte.

COM CLASSE, MAS NEM TANTO

Já a Brotas Beer Weissbier, da Brotas Beer Indústria de Bebidas, ficou em terceiro, com um jacaré desenhado à mão que se tornou o embaixador da marca, inspirado no Rio Jacaré-Pepira, que corta a cidade, conhecida por ser palco de esportes radicais, principalmente aquáticos.

— A gente queria fazer um rótulo para ganhar prêmio — conta Renato Scatolin, autor do projeto da Brotas, que estudou design na Austrália. — Quando voltei ao Brasil, a cervejaria estava começando a produzir, e usava rótulos de design pobre. Senti que tinha um potencial ali e fiz uma proposta ao dono, Márcio Secafin. Era preciso, antes de fazer o rótulo, dar uma cara à marca. A ideia era uma cerveja irreverente, para um público pouco acima dos 40, já estabelecido, meio gordinho. O slogan escolhido foi “Brotas beer, a cerveja com classe, mas nem tanto", justamente para arrancar um sorriso das pessoas. A partir dai, partimos para a criação do rótulo.

O processo levou um ano e a cerveja foi lançada em 2013.

GARRAFAS COM O HUMOR CARIOCA

Palco do Mondial La Bière — que acontece em novembro e se destaca como o mais importante evento para degustação e difusão da cultura cervejeira do país —, o Rio tem suas cervejarias artesanais entre as que já se destacam, não apenas pelos sabores, mas por seu visual e estilo bem cariocas. Além da 2cabeças, há exemplos como a Cacildis e a Biritis, da Brassaria Ampolis, que tem entre seus sócios Sandro Gomes, filho do comediante Mussum, que imortalizou os dois termos.

QUATRO AMIGOS E UM MASCOTE

Outra que faz sucesso é Jeffrey Niña, dona de um rótulo estrelado por um patinho muito elegante, de terno, escolhido como mascote por quatro amigos que, após uma viagem juntos, se tornaram sócios na produção da cerveja, feita com raspas de limão siciliano.


— Já nos conhecíamos há 14 anos e, depois desta viagem, em que degustamos muitas cervejas, voltamos com a ideia de desenvolver nossa própria marca. Queríamos uma cerveja cítrica, leve e aromática. Escolhemos o pato porque ele só viaja com os amigos, vai muito longe e sempre volta para casa. Além disso, os líderes vão se alternando no comando do grupo — conta Gilson Val, falando também por Eduardo Brand, Raphael Bloise e Renato Monteiro. — Fazemos tudo em grupo. Depois de um brainstorm com eles, eu me sentei com minha mulher, que é designer de moda (Aline da Costa, da Richards), e fizemos um protótipo do pato. Convidamos o coletivo de arte Novecinco (de grafiteiros e ilustradores) para desenvolver o primeiro rótulo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Designers criam telefone falso que ajuda viciados em smartphones

Muitas pessoas não conseguem passar um minuto sem conferir as notificações que recebem via smartphones. Para ajudar a amenizar esse vício, uma equipe de designers criou o “NoPhone”, um gadget inovador que simula a sensação de um celular, mas sem ter tecnologia alguma.

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A equipe, formada por Ingmar Larsen, Bem Langeveld, Van Gould, Mariana Oliveira e Alanna Watson, começou a invenção como uma brincadeira. Mas, essa ideia se tornou uma realidade necessária para aqueles que ficam ansiosos quando não têm seus dispositivos ao lado.

O aparelho retangular preto simula o peso e a sensação de um celular e, além disso, é à prova d’água e não tem perigo de quebrar. Desde o início do site da NoPhone, a equipe por trás dele tem recebido um número enorme de e-mails, enviados por pessoas viciadas em smartphones ao redor do mundo, com interesse em comprar o aparelho.

No momento, a equipe está pensando em outras possíveis inovações para ajudar aqueles que vivem em função das tecnologias.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Veja como nascem as estampas que são a cara do Rio

Marcas cariocas investem em ‘olhar para dentro’ e na pura e simples observação de diferentes culturas para criar

Por Ludmilla de Lima, Paula Autran, Rodrigo Bertolucci e Simone Candida

RIO - Parece sessão de terapia, e é quase isso mesmo. Numa sala do escritório da Farm, em São Cristóvão, as principais cabeças da grife, antes de pensar uma coleção, se reúnem para discutir, cada um, o seu momento de vida. Pode ser um sonho, um desejo, uma viagem inesquecível, uma frustração... Depois desse bate-papo, eles se encontram outra vez para traduzir esse timing pessoal por meio de imagens. Essa segunda rodada aconteceu na última terça-feira com uma proposta nada freudiana: encontrar inspirações para as estampas que vão colorir as meninas do Rio no inverno de 2016. Só depois é que os modelos (saias, vestidos, blusas) são, efetivamente, riscados. E essa forma subjetiva de criar moda não é exclusividade da Farm: outras marcas cariocas investem nesse “olhar para dentro” e na pura e simples observação de diferentes culturas.

E não se trata de acompanhar passarelas lá fora, o que ficou no passado. A La Estampa, empresa com escritório na Lagoa que desenvolve estampas para 1.500 marcas — entre elas Cantão, Maria Filó, Dress To, Animale, Hering e C&A —, aposta nesse tipo de bagagem.

Inspiração. Gabriel entre tecidos da Farm: olhar atento para os detalhes (Marcelo Piu)

Na quinta-feira, o fundador do La Estampa, Marcelo Castelão, embarcou para Miami, onde vai acompanhar a Art Basel, feira internacional de arte

— É uma ‘viagem inspiracional’. Viajamos para observar o que está acontecendo, ver cores, formas, móveis... — diz Marcelo, explicando que nos dois últimos anos a empresa foi para Vietnã, Camboja, Marrocos, Provence, Japão, China, México, Costa Rica, Guatemala, Belém, Caruaru, Chapada Diamantina. — A moda é muito cíclica. Trabalhamos com o inconsciente, o que achamos que vai acontecer, e com viagens para absorver, sobretudo, cultura e arte.

Artesanal. Artista faz desenho a mão na casa de criação da La Estampa (Marcos Tristão)

Essas informações eles juntam com o conhecimento trazido pelos clientes, já que cada marca tem seu DNA. Ocorre de uma grife levar para a La Estampa uma ideia de um lugar, e a equipe de criação da empresa fazer uma imersão nessa cultura em busca de referências para as estampas. Às vezes, no meio do caminho, o tema é transformado. A coleção de verão da Dress To, por exemplo, tem como tema o México, mas a ideia inicial era homenagear Cuba. Durante as discussões com a La Estampa, a ideia de se basear nas mulheres cubanas foi se transformando para uma coleção mais ampla, cheia de latinidade.

Uma estampa pode nascer num desenho feito a mão, numa imagem criada digitalmente, numa foto. Na quarta-feira, um artista plástico fazia na La Estampa um desenho com guache inspirado na arte do inglês William Morris. Os artistas envolvidos nesse trabalho costumam também ir ao Jardim Botânico, por exemplo, para desenhar a natureza in loco. O desenho vai para arte final e é concluído pela equipe de produto e estilo. A última etapa é quando a estampa sai do forno: no caso da La Estampa — que cria cerca de 3.500 padrões por ano e tem 41 criadores no Rio —, ela é impressa digitalmente em tecido numa fábrica em São Cristóvão ou por meio de cilindros em Barcelona.

A empresa imprime os tecidos da Farm, que tem um processo criativo bem próprio. Diretor de arte da grife, o artista plástico Gabriel Oliveira conta que, além da “sessão de análise”, há as viagens e um olhar todo especial para o que está ao redor. Gabriel voltou há dois meses de Pasadena, na Califórnia, onde foi a uma feira de brechós. Numa viagem à Austrália, ele fez uma foto em Byron Bay que virou uma estampa encontrada nas lojas:

— Não pesquiso em moda. Olho para a arte e foco se é inverno ou verão. O primeiro pilar da criação é olhar para a natureza, porque tudo de belo já foi criado. O segundo é olhar o detalhe, o que ninguém vê.

Gauguin. Tropical exótico na Salinas (Divulgação)

A artista plástica Rosana Doñate, da Salinas, diz que a criação envolve diferentes técnicas:

— Na coleção Dolce Vita, usei uma técnica fotográfica chamada cianótipo para revelar, através do sol, o meu desenho. Por trabalhar em ateliê, tenho a liberdade de usar uma enorme variedade de técnicas em pintura, gravura, fotografia. Os resultados dessas experiências pictóricas são passados para o computador para a finalização da arte.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Vaso de plantas que se move

Base flexível permite que planta “busque” luz solar


O vaso que dança conforme o sol
Foto: Studio Bag Disseny

RIO — O estúdio de design Studio BAG Disseny, na Espanha, criou um vaso bem curioso, que, através da sua base flexível, se move em busca da luz do sol. O “Voltasol”, como é chamado, é feito de cerâmica e em vários tamanhos. Por dentro ele é igual aos outros. O segredo está embaixo, onde ao invés de uma base reta, encontra-se uma estrutura que remete ao efeito do pião. O objetivo é que as plantas cresçam mais rapidamente e bonitas. Uma peça moderna e fofa!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Escola de artes visuais aponta o caminho das pedras da litografia carioca

Salinha da EAV preserva “estantes com tábuas de Moisés”

Por Ludmilla Lima / Rodrigo BertolucciI / Simone Cândida

“Tábuas de Moisés”. Estante na sala da oficina de litografia da EAV guarda pedras usadas na impressão de marcas (Marcelo Carnaval / Agência O Globo)

RIO — “Tira sarda, pano, limpa e aformosea o rôsto. Desodora e seca o suôr. Higieniza e perfuma permanentemente a pele”, avisa a primeira caixinha do Leite de Rosas, com a ortografia do começo do século XX, época em que era impressa em papel craft por meio de uma pedra litográfica. Nessa matriz, guardada na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, no Jardim Botânico, ainda há outras instruções. “Modo de usar: agita-se o vidro e, com o líquido leitoso, friccionam-se suavemente, uma ou duas vezes ao dia, as regiões que se deseja curar ou simplesmente asseiar”. Naquele tempo, as embalagens, rótulos e cartazes de produtos eram feitos por meio dessa técnica, que caiu em desuso com a popularização do offset. Muitas das pedras viraram material de construção, tendo como destino pisos e paredes. Mas uma salinha da EAV preserva “estantes com tábuas de Moisés”.

Em 1996, a Gráfica Real Grandeza, que imprimia, entre outras embalagens, as da Bhering, Colombo e do Óleo de Fígado de Bacalhau, doou 186 matrizes para a escola. Esse material, que precisa tanto de restauro quanto de documentação histórica, agora começa a ser redescoberto pela instituição. A programação de verão da EAV, que vai de 12 de janeiro a 6 de fevereiro e está com inscrições abertas, trará à luz esse acervo no curso “Arquivo em Movimento - Imagem e História”, que vai trabalhar as pedras com 25 artistas.

Elas são mantidas no espaço da oficina de litografia, técnica hoje somente usada por artistas. Diretora da EAV desde agosto, Lisette Lagnado foi quem apelidou as matrizes como tábuas de Moisés. Também foi dela a ideia de badalar esse acervo, apresentado à nova diretora pela professora Tina Velho, coordenadora do Núcleo de Artes e Tecnologia e das oficinas de imagens gráficas. Tina estava em busca de apoio para um projeto de restauro da coleção. Quando foi ver in loco do que se tratava, Lisette se deparou com estantes onde, no lugar de livros, havia placas de pedra ilustradas. Ela se encantou na hora.

— Queremos iluminar esse acervo, que tem sido usado mais como matriz para fazer gravuras. O curso pretende algo mais ambicioso, que é tornar isso público — afirma a diretora, dizendo que há poucas informações sobre a história dessas pedras. — O interessante é, a partir disso, documentar esse material e ver como os artistas podem potencializá-lo.

CURIOSIDADES DA PROPAGANDA

A coleção guarda itens curiosos da propaganda do começo do século XX.

— A maior parte das pedras dessa gráfica são cartazes e rótulos de remédios. Eles trabalhavam muito com a indústria farmacêutica. Há muita coisa engraçada — diz Tina.

Lisette Lagnado, diretora da escola de artes visuais. (Marcelo Carnaval / Agência O Globo)

Uma das pedras que agora fazem a gente rir é a das Pílulas de Herva de Bicho, que, conforme diz a logomarca, são supositórios indicados para hemorroidas e prisão de ventre. Na estante da sala da oficina de litografia, que conta com uma impressora litográfica, há ainda a embalagem do Chocolate em Pó Brasil-Portugal, da Bhering, com o modo de preparação: “Junta-se a uma xícara de água ou de leite, um pouco antes de ferver, duas colheres das de sôpa do pó contido nesta lata. Mexendo-se sempre até tomar a consistência desejada, obter-se-á uma chávena de delicioso chocolate com BAUNILHA desengordurado”.

Tina Velho diz que a impressão litográfica podia ser feita em diferentes cores, embora os textos e desenhos nas pedras sejam sempre pretos. As marcas aparecem invertidas, embora em algumas pedras, não: estas eram feitas como decalque, guardando a imagem para o caso de a pedra usada na impressão se desgastar.

— As pedras têm grande valor para a história da imagem gráfica. Essa técnica é o princípio do offset. Tudo que hoje é feito com chapas de alumínio era feito com pedras litográficas — conta Tina, explicando que a técnica tem como princípio o fato de água e gordura não se misturarem.

Os desenhos são feitos com um lápis gorduroso na pedra úmida. Ao se passar o rolo, a tinta só fica onde tem gordura, e o desenho vai direto para o papel, explica. Tina diz que hoje é mais fácil encontrar pedras litográficas no Brasil do que na Europa, pois o offset, inventado em 1904, só chegaria ao país bem mais tarde. Todas as pedras têm a mesma origem: a mina calcária de Solnhofen, na Alemanha, que já se esgotou. Por isso, as pedras sem rótulo usadas por artistas na EAV são limpas com malha de ferro e reaproveitadas.

A doação das pedras foi feita no processo de fechamento da gráfica, que funcionava no Catumbi, pela filha do dono, que havia falecido. Do total entregue, algumas se quebraram já no transporte. Das 186 atuais, apenas 20 estão restauradas.

— Temos um projeto pronto de restauração e estamos pleiteando patrocínio. O ideal seria fazer uma pesquisa mais profunda sobre elas — avalia a professora Tina, dizendo que o surgimento da litografia no fim do século XVIII foi tão revolucionário quanto o advento das tecnologias digitais.

As pedras (em branco ou as restauradas) são usadas artisticamente nas oficinas, às vezes misturando num mesmo trabalho impressão digital e litográfica. Supervisor das oficinas de imagens gráficas, Roberto Tavares diz que o acervo permite uma viagem no tempo:

— O interessante é reviver uma outra época e conhecer como era feita a comunicação.

ENTRE OS PLANOS, LIVRO E EXPOSIÇÃO

No curso, os 25 artistas bolsistas — selecionados pela EAV entre os inscritos — terão a oportunidade tanto de lidar artisticamente com as pedras quanto levantar histórias por trás desse material, que ajuda a contar a evolução do design gráfico.

— Há uma gama enorme de desdobramentos em torno das pedras. Quero que os bolsistas estudem não só a gravura stricto sensu (especificamente), mas também que usem as peças para pensar outras questões, como o design e as fontes gráficas daquele tempo e as ideologias que podem estar contidas na propaganda. Por enquanto, elas são só pedras brutas — reflete Lisette, referindo-se ao fato de não haver estudos sobre esse acervo, cujas datas e autores são desconhecidos.

Ela planeja ainda editar um livro com imagens impressas das pedras e fazer uma exposição.

O curso que vai explorar o potencial desse acervo faz parte do EAVerão 2015, que conta com programas abertos ao público — como projeção de filmes e debates — e atividades restritas aos 25 bolsistas. Além do curso “Arquivo em Movimento”, haverá aulas fechadas sobre arquitetura de exposições, mitologias brasileiras e a cultura da ecologia. As inscrições vão até sexta-feira. Ao fim da programação, três alunos serão escolhidos para uma bolsa de um semestre na escola. Informações no site http://eavparquelage.org.br/.

Uma das raridades encontradas na estante da sala da oficina de litografia, que conta com uma impressora litográfica, é a embalagem do Chocolate em Pó Brasil-Portugal, da Bhering. Ela traz o modo de preparação: “Junta-se a uma xícara de água ou de leite, um pouco antes de ferver, duas colheres das de sôpa do pó contido nesta lata. Mexendo-se sempre até tomar a consistência desejada, obter-se-á uma chávena de delicioso chocolate com BAUNILHA desengordurado”.

Tina Velho diz que a impressão litográfica podia ser feita em diferentes cores, embora os textos e desenhos nas pedras sejam sempre pretos. As marcas aparecem invertidas, embora em algumas pedras, não: estas eram feitas como decalque, guardando a imagem para o caso de a pedra usada na impressão se desgastar.

— As pedras têm grande valor para a história da imagem gráfica. Essa técnica é o princípio do offset. Tudo que hoje é feito com chapas de alumínio era feito com pedras litográficas — conta Tina, explicando que a técnica tem como princípio o fato de água e gordura não se misturarem.

TÉCNICA DATA DO SÉCULO XVIII

Os desenhos são feitos com um lápis gorduroso na pedra úmida. Ao se passar o rolo, a tinta só fica onde tem gordura, e o desenho vai direto para o papel.

Essa técnica de gravura data do fim do século XVIII. Hoje, é mais fácil encontrar pedras litográficas no Brasil do que na Europa, pois offset, criado em 1904, só chegaria ao país bem mais tarde. Todas as pedras têm a mesma origem: a mina calcária de Solnhofen, na Alemanha, que já se esgotou. Por isso, as pedras sem rótulo usadas por artistas na EAV, depois de usadas, são limpas com malha de ferro e reaproveitadas.

Na EAV, DA TÉCNICA CENTENÁRIA AO DIGITAL

A Gráfica Real Grandeza funcionava num sobrado da Rua Senhor dos Matosinhos, no Catumbi. A doação das pedras foi feita no processo de encerramento da empresa pela filha do dono, que havia falecido. Do total entregue, algumas se quebraram já no transporte. Das 186 atuais, apenas 20 estão restauradas.

— Ao longo desses anos venho recuperando as pedras aos poucos. Temos um projeto pronto de restauração e estamos pleiteando patrocínio. O ideal seria fazer uma pesquisa mais profunda sobre elas — avalia a professora Tina, dizendo que o surgimento da litografia no fim do século XVIII foi tão revolucionário quanto o advento das tecnologias digitais.

VIAGEM NO TEMPO

As pedras (em branco ou as restauradas) são usadas artisticamente nas oficinas, às vezes misturando num mesmo trabalho impressão digital e litográfica. Supervisor das oficinas de imagens gráficas, Roberto Tavares diz que o acervo permite uma viagem no tempo:

— O interessante é reviver uma outra época e conhecer como era feita a comunicação.

O curso que vai explorar o potencial desse acervo faz parte do EAVerão 2015, que conta com programas abertos ao público — incluindo projeção de filmes e debates — e atividades restritas aos 25 bolsistas. Além do curso “Arquivo em Movimento”, haverá aulas fechadas sobre arquitetura de exposições, mitologias brasileiras e a cultura da ecologia. As inscrições vão até sexta-feira. Até a última terça, mais de 400 pessoas estavam concorrendo às 25 vagas. Ao fim da programação, três alunos serão escolhidos para uma bolsa de um semestre na escola. Informações no site http://eavparquelage.org.br/.

Na mostra “Flash day", a tatuagem vista como projeto de design

Exposição aborda a ideia da tatuagem como um trabalho autoral

Por Rodrigo Bertolucci / Paula Autran / Simone Candida / Ludmilla de Lima

A exposição, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, vai até o dia 18 de dezembro (divulgação)

RIO - Elas estão em quadros, fachadas, pinturas e, principalmente, no corpo humano. As tatuagens, uma das expressões artísticas mais antigas da humanidade, também podem ser consideradas um projeto de design, garante o doutor em design pela PUC-Rio, Pedro Sánchez, que assina a curadoria da mostra “Flash day – autoria na tatuagem”. A exposição, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, até o dia 18 de dezembro, aborda a ideia da tatuagem como um trabalho autoral e apresenta obras de quatro artistas visuais/tatuadores: Iuri Casaes, Leo Pereira, Loo Stavale e Rafael Plaisant.

— A tatuagem é hoje uma importante manifestação da cultura visual contemporânea. A tattoo é consumida e negociada por milhares de pessoas como uma ferramenta de construção de identidade, identidade essa social, individual e grupal — explica Sánchez, que também é professor de gravura da Escola de Belas Artes da UFRJ.


Para Sánchez, a cultura visual tornou-se um campo de estudo fundamental para a compreensão do mundo pós-moderno e, ao mesmo tempo, um plano onde diferenças e direitos são negociados.

— É através da manipulação de indícios visuais (e a edição do corpo está relacionada a esse processo) que diversos grupos vêm afirmando seus direitos civis e sociais. E é nesse ponto que a tatuagem como prática social insere-se ou relaciona-se com o campo do design, porque o design é, também, um campo de estudo e de manifestação visual que ultrapassa o tradicional e o formal da arte. O design está por toda a parte — acredita.

Além disso, afirma, a atividade profissional do tatuador está relacionada com a do designer. Em ambos os casos, a afirmação da autoria é um processo de constante negociação, algo com o qual o profissional vive se debatendo.

— Rafael Plaisant costuma dizer que a tatuagem está mais relacionada com o artesanato do que com a arte. Eu diria que está mais relacionada com o design contemporâneo do que com a arte. Assim, para compreender a importância social dessa manifestação, devemos procurar perceber o circuito de produção-circulação-consumo no qual ela está inserida. A ideia de uma autoria na tatuagem diz respeito ao plano da produção, pois é uma questão vivida no dia a dia do estúdio pelo tatuador. Mas diz respeito também ao seu consumo, a uma transformação no público, ou seja, ao surgimento de um público especializado, que vai valorizar, acima de tudo, o trabalho (a autoria) do tatuador — diz Sánchez.

Formada em gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, Luiza Stavale, que integra a mostra com 29 obras, realiza um trabalho autoral por meio de gravura, desenho e tatuagem.

— A tattoo é um adorno para o corpo. É decorativa, mas também uma expressão íntima da personalidade, bem como as roupas que a pessoa escolhe usar. Faz parte da construção da sua identidade visual; é como se você escolhesse o seu próprio layout — diz Loo, como é conhecida.

PAIXÃO E PROFISSÃO

Designer por formação, o tatuador Rafo Castro, de 38 anos, perdeu as contas de quantas tatuagens já fez em seu corpo. No momento, os dois braços e uma perna já estão quase fechados.

Ele também é conhecido por sua arte visual, e seu trabalho passeia por intervenções urbanas, tela e outras mídias. Para Castro, a tatuagem é muito particular e cada pessoa tem uma relação completamente diferente com o seu desenho:

— Arte, design ou ilustração: a tatuagem pode ser isso tudo ou apenas uma forma de expressão. Depende de quem faz e de quem cria, do seu conceito de concepção.

TATUADOR E CLIENTE: PARCERIA ESSENCIAL

Para a arquiteta e coordenadora do Centro Carioca de Design (CCD), Paula de Oliveira Camargo, o resultado final só poderá ser chamado de trabalho de design caso exista uma parceria entre tatuador e tatuado e, mais ainda, um projeto envolvendo ambos. Para ela, a tatuagem é um tema instigante e bem interessante para ser pensado em projetos que estudem melhor essa relação.

Uma das obras expostas na mostra que segue até o mês que vem (divulgação)

— O profissional da tatuagem precisa elaborar a forma como essa pintura vai ser trabalhada no corpo da pessoa. O design tem que ser como um projeto, uma proposta, feita de forma específica para atender a uma determinada situação. Dessa forma, podemos chamar a tatuagem de design, sim! — afirma Paula, acrescentando que tem seis tatuagens em seu corpo, todas feitas “com elaboração e muita exigência”.

A coordenadora do Centro Carioca de Design reforça que o mais importante para o sucesso de um trabalho de design é a relação com o outro, que vai proporcionar o perfeito entendimento da demanda.

— Quando falamos em um trabalho pensado, como uma obra do design gráfico aplicado sobre um suporte específico que é o corpo humano, então começamos a trabalhar a dimensão da tatuagem como um projeto da área. Em geral, o design parte da questão de uma relação, um questionamento específico, para criar uma solução. E isso vale tanto para o design de produto quanto para o gráfico — explica.

PARA O TATUADO, O QUE VALE É A GRIFE

Desde o dia 23 de outubro, a exposição “Flash day – autoria na tatuagem” pode ser visitada, de terça a domingo, na galeria I do Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, a partir das 19h. A exposição, que poderá ser vista até 18 de dezembro, conta com fotografias e desenhos, além de gravuras e pinturas que abordam a tatuagem como uma obra autoral.

— A exposição discute não apenas o processo de popularização dessa prática e sua afirmação como importante manifestação da cultura visual contemporânea, mas principalmente o desenvolvimento de um público especializado, que passa a consumir uma tatuagem de autor, buscando e valorizando o estilo pessoal de cada tatuador. Para esse público, o que interessa não é simplesmente a imagem a ser tatuada (e os significados místicos ou pessoais por trás de tais imagens) e sim sua “assinatura”, o fato de aquela imagem ter sido feita por aquele tatuador específico — explica o curador Pedro Sánchez.

Ele ainda destaca que a afirmação da autoria na tatuagem é, na realidade, um processo de permanente negociação, onde estão em jogo a necessidade de se manter profissionalmente no mercado, a construção de uma linguagem própria, a afirmação perante o próprio grupo e a relação com as expectativas, às vezes díspares, do público.