segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Designer de Histórias

Há 15 anos, Maurício Arruda se dedica a transformar material descartado em objetos e móveis que aliam sustentabilidade, bom gosto e originalidade. Ele também trabalha para mudar a forma como encaramos o lixo.








Fonte: Docol Magazine.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A ciência por trás das joias no Brasil

Novo laboratório de gemologia vai ajudar a promover e garantir tesouro nacional no mercado global

Por Cesar Baima

Minucioso: processo de autenticação de gemas exige exame atento de diversas características das pedras 
(Leo Martins)

RIO - Ouro, prata, pedras preciosas. As joias fascinam a Humanidade desde tempos pré-históricos, num mercado que ao longo dos séculos teve como principal base a confiança. Mas o advento de métodos artificiais de produzir gemas e o crescimento desta indústria, que movimenta cerca de US$ 200 bilhões anuais no mundo, exigem atenção e cautela. De olho nisso, o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, acaba de inaugurar as novas instalações do seu Laboratório de Pesquisas Gemológicas (Lapege), no Rio.

Com investimentos da ordem de R$ 1 milhão, o Lapege foi equipado com o que há de mais moderno e sofisticado em instrumentos de caracterização de pedras preciosas no planeta, e é o único na América do Sul com esta finalidade. Assim, ele deverá ajudar a promover a produção e venda das joias brasileiras tanto no país quanto no mundo, com garantias de autenticidade e qualidade, destaca o geólogo Jurgen Schnellrath, chefe do Lapege.

— Tudo isso faz parte de um projeto maior para dar mais competitividade às joias brasileiras, que agora poderão ter um certificado de garantia aceito em qualquer parte do mundo — diz.

Segundo Schnellrath, as melhorias no Lapege — criado em 97 e que até recentemente ocupava apenas uma pequena sala no prédio do Cetem na Ilha do Fundão — também abrem caminho para a construção do primeiro banco de dados público com a “assinatura” química das pedras. Com isso, será possível determinar até a procedência geográfica de algumas gemas, importante instrumento no combate ao seu contrabando.

"ATRÁS DE DIAMANTES DE SANGUE"

E, apesar de ainda não se poder fazer isso com os chamados “diamantes de sangue" — pedras originárias de garimpos em zonas de conflito, notadamente na África, cuja comercialização é proibida por acordos internacionais —, o laboratório poderá colaborar na luta global contra a venda de outras gemas, como rubis e esmeraldas, também retiradas destas regiões.

O renovado Lapege vai permitir ainda a descoberta de novas pedras preciosas com potencial econômico que possam repetir o sucesso da turmalina paraíba. Encontrada pela primeira vez no fim dos anos 1980 no estado nordestino que lhe emprestou o nome, a gema de coloração azul se tornou uma das mais cobiçadas por consumidores, e por consequência por joalheiros, ao redor do mundo, atingindo preços que rivalizam com os dos diamantes.

De acordo com Schnellrath, embora algumas turmalinas “normais” também possam ter cor azulada por conterem pequenas quantidades de ferro, na paraíba o azul é muito mais forte e brilhante, resultado da presença de no mínimo 0,1% de óxido de cobre na sua composição.

— Estamos trabalhando muito na autenticação de turmalinas paraíba — conta. — O que faz ela tão diferente é a presença de cobre na sua estrutura cristalina, algo que nunca tinha sido detectado antes e que não se vê com os equipamentos comuns de um laboratório gemológico padrão.

Por fim, a ampliação do Lapege possibilitará ampliar o atendimento ao público em geral interessado em verificar a autenticidade de joias de família. Segundo Schnellrath, todos os anos pelo menos cem pessoas procuram o laboratório para saber se as pedras nas joias herdadas de parentes são naturais ou sintéticas, cujo valor costuma variar entre apenas 1% a 10% das “verdadeiras”.

— Apesar de as pedras sintéticas poderem ser tão lindas quanto as naturais e até as superarem em termos de qualidade, o fato de elas serem produzidas em laboratório faz com que percam o caráter de raridade e, assim, valor — explica.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Design Rio: curvas e paisagens da cidade do Rio inspiram designers de jóias

Cartões-postais cariocas foram parar em peças de ouro, prata e bronze. Tendência ganha força com a chegada dos 450 anos

Por Simone Candida, Ludmilla de Lima e Rodrigo Bertolucci

O colar de autoria da designer Tatiana Bravo, que declara amor à cidade foi inspirado em cartões-postais cariocas (Divulgação)

RIO — Eles já inspiraram sambas-enredo, campanhas publicitárias e foram parar em camisetas e objetos de decoração. Os cartões-postais que fizeram do Rio a Cidade Maravilhosa, influenciando as mais variadas manifestações artísticas, agora inspiram designers de joias, cada vez mais interessados nas curvas e paisagens cariocas. A tendência ganha ainda mais força com a chegada dos 450 anos da cidade, que serão comemorados em 2015.

Ourives e artistas como Tatiana Bravo, Juliana Ibarra e Valéria Sá já confeccionam peças em ouro, prata e bronze em que se destacam o bondinho do Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e o Maracanã. A moda é fazer tributo às nossas belezas na forma de anéis, brincos, colares, escapulários, pingentes...

Desenvolvendo acessórios há 14 anos, Tatiana Bravo começou na revenda de bijuterias em 1999. Um ano depois, já passou a criar e a montar as suas próprias peças, com sementes e pedras brasileiras, acreditando num trabalho mais autoral. Autodidata, a designer de joias, assim que surgiu a moda dos escapulários em 2008, pensou: “nada mais sagrado para o carioca que seus símbolos”.

ESCAPULÁRIO À MODA CARIOCA

A primeira peça de Tatiana Bravo inspirada nos cartões-postais da cidade foi, justamente, um escapulário confeccionado em prata e pérolas, que, em vez dos santinhos, trazia o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, dois ícones cariocas.

— Depois, fiz o escapulário Amo o Rio, com o Pão de Açúcar e o bondinho de Santa Teresa. Essa peça foi para atender a um pedido de um amigo judeu, que queria presentear sua irmã que morava em Israel com uma joia que fizesse uma homenagem à nossa cidade. Mas ele não queria o Cristo, que era mais comum — lembra Tatiana.

O anel Pão de Açúcar também é de autoria da designer, que teve a ideia quando voltava de uma viagem a São Paulo.

— Ao passar pelo Pão de Açúcar tive um insight: “podia ter um anel com essa imagem para ficar sempre comigo” — relembra a carioca, apaixonada pela cidade, que ainda tem em sua coleção de joias o colar Montanhas, em versões com o Cristo Redentor, a Pedra da Gávea e o Dois Irmãos; o brinco Pão de Açúcar com a Enseada de Botafogo; e o anel Pão de Açúcar com a bike do Tour do Rio, só para citar alguns itens.

Segundo a designer Isabella Perrotta, que há 15 anos estuda a representação icônica da cidade, há um leque comemorativo desenvolvido para um aniversário de D. João VI, cuja ilustração é o Largo do Paço, com o chafariz de Mestre Valentim. O objeto, produzido na China, tem pintura feita a guache e ouro e armação toda em madrepérola. A relíquia está em reserva técnica para sua melhor conservação, no Museu da Chácara do Céu.

Isabella cita outros exemplos de peças que, no passado, já eram vendidas em joalherias:

— Temos a coleção de vasos de vidro assinada pelo artista art nouveau francês Émile Gallé. Os motivos são as montanhas do Pão de Açúcar, o Corcovado e a Pedra da Gávea, adornados por plantas tropicais. Há casos em que a paisagem construída, como igrejas e o casario colonial, aparece com bastante nitidez. Hoje devem existir cerca de 200 exemplares dessa série no mundo. Os vasos eram vendidos nas principais joalherias da cidade, exibidos em estojos de veludo — conta.

MARACANÃ VIROU ANEL NO SUL DO PAÍS

A gaúcha Valéria Sá, que trabalha com joalheria desde 1995, transformou o Maracanã no anel Stadium. A criação da designer acabou sendo finalista do “Concurso Ajorsul de Joias”, em 2006, promovido pela Associação do Comércio de Joias, Relógios e Ópticas do Rio Grande do Sul (Ajorsul). A disputa teve como tema a Copa do Mundo.

— A joia foi inspirada na vista do Maracanã do alto. O estádio é um ícone do futebol brasileiro e faz parte da cultura de uma das cidades mais lindas do mundo, o Rio de Janeiro — diz Valéria Sá, que tem um ateliê de joias no coração de Porto Alegre, onde ficam também seu showroom e sua oficina de trabalho.

Anel no formato do Maracanã: peça foi criada para a Copa do Mundo (Divulgação)

Por ano, ela desenvolve diversas coleções de joias, feitas de metal, ouro e prata. Há ainda uma linha autossustentável:

— Utilizo prata reciclada de aparelhos de raios X. E também vidros reciclados e lapidados com as mesmas facetas que usamos para lapidação das pedras preciosas.

NO RIO, AMY GANHOU PINGENTE DE CRISTO

Quando a artista britânica Amy Winehouse veio ao Brasil, em 2011, a designer e estilista Juliana Ibarra, fã da cantora, não perdeu tempo e, com a intenção de presenteá-la com alguma peça que representasse o Rio, fez para ela um pingente com a imagem do Cristo Redentor. Formada em desenho industrial pela PUC-Rio e em moda pela Universidade Candido Mendes, Juliana, depois de fazer projetos de figurino, cenografia e design gráfico, apaixonou-se pela ourivesaria.

— O pingente foi entregue em mãos para a artista, que estava em um hotel em Santa Teresa. Atualmente, essa peça, feita em prata (recortada e oxidada), faz muito sucesso entre cariocas que moram fora do Rio e querem levar uma lembrança com eles. O que me deixa feliz, além de ter presenteado uma artista de que tanto gosto, é ter o meu trabalho reconhecido em outros países — diz Juliana Ibarra, que se inspirou numa foto da lua cheia emoldurando o Cristo Redentor.

Pingente com imagem do Cristo foi presente para Amy Winehouse (Divulgação)

Juliana teve ainda peças que fizeram parte do figurino da atriz Luana Piovani no programa “Super Bonita", do GNT, e também de novelas como “Araguaia”, “Malhação”, “Salve Jorge” e “Amor à vida”, da TV Globo, e do longa “SOS mulheres ao mar”. Suas criações foram usadas por atrizes como Letícia Spiller, Natália do Vale, Giovanna Antonelli e Paolla de Oliveira.


Em 2011, Juliana Ibarra foi uma das artistas cariocas que participaram da Cow Parade, exposição internacional nas ruas do Rio, com “Essa vaca é um brinco!”, intervenção que teve como objetivo levar o brilho e a fascinação das joias para as ruas e os moradores da cidade.

O colorido que está mudando a paisagem do Morro Dona Marta

Especialista destaca que o design também pode servir de ferramenta para o desenvolvimento local

Por Simone Candida, Ludmilla de Lima e Rodrigo Bertolucci

O colorido chega para acabar com a velha tradição de construções sem acabamento, típicas de favelas 
(Adriana Lorete / Agência O Globo)

RIO — Os barracos empilhados nos morros da cidade, com suas irregularidades e cores, chamam a atenção. Um bom exemplo é o Morro Dona Marta, em Botafogo, que se destaca pelo seu colorido harmônico, graças à ação dos moradores, que resolveram realçar suas fachadas com uma mistura de tons. Quem anda por suas ruas e vielas se impressiona com as intervenções únicas. O que muitos não sabem é que tais ações são consideradas um tipo de design espontâneo e criativo.


Designer e pesquisadora, Barbara Szaniecki, que atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado na Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj, destaca que o design também pode servir de ferramenta para o desenvolvimento local.

— Os moradores se beneficiam de todo o processo, e não apenas do projeto finalizado. Há as trocas cognitivas, culturais, criativas e afetivas que acontecem ao longo da relação entre designers e moradores. A produção de soluções criativas para problemas que os afligem é um exemplo — diz.

O Dona Marta foi contemplado em 2006 com o projeto Favela Painting, no qual os artistas holandeses Jeroen Koolhaas e Dre Urhahn criaram arte através de intervenções em comunidades. Eles pintaram os prédios que contornam a Praça Cantão com um leque de raios multicoloridos. Conforme Barbara, na medida em que a pintura envolve planejamento ou projeto, pode ser considerada design.

— As comunidades têm uma complexidade social e cultural que exige uma abordagem especial — diz a profissional, destacando que o design traz melhorias para problemas de infraestrutura e pode promover inovações e criar identidades visuais.

Além da grafitagem, os moradores, com a ajuda de profissionais, passaram a valorizar a pintura dos imóveis
(Adriana Lorete / O Globo)

Idealizado e desenvolvido por alunos de Design da PUC-Rio, o projeto “Não Saio Daqui Porque" foi realizado no Dona Marta no segundo semestre de 2012, com a meta de reforçar o vínculo dos moradores com a comunidade. Para Fernanda Guizan, que participou do processo, a experiência foi gratificante.

— Conhecemos pessoas incríveis e que participaram tanto quanto nós, futuros profissionais — diz.

BENEFÍCIOS PARA TODOS

Com a pesquisa, Fernanda observou que a inserção desse ambiente na nova geografia carioca traz benefícios, mas também coisas negativas:

— A crescente valorização dos terrenos e sua descoberta como um espaço com alto potencial lucrativo acabam tornando o lugar insustentável para as pessoas que o habitam.

Transformar paredes em meio de comunicação foi um dos objetivos do projeto, conta Fernanda:

— Acreditamos que podemos ajudar a acender uma reflexão coletiva, reforçando a união e a ideia de comunidade e, assim, fazer com que percebam, de uma nova forma, seu papel em relação àquele espaço.

O diretor cultural e social da associação de moradores, Antônio Guedes, afirma que as intervenções deixaram o Dona Marta mais atraente:

— É maravilhoso. E ter como parceiros profissionais de design é muito importante.

Em 2010, o designer gráfico Eduardo Denne fez um painel na quadra do Dona Marta, com cinco retratos. Em parceria com a comunidade, o bloco Spanta Neném e o Escritório de Arte Rio, a obra faz parte das atividades do projeto [cdr], de intervenção urbana e educação, criado por Denne como trabalho de graduação em design, pela UniverCidade, em 2005.­

— A imagem foi criada para ser vista de longe e de perto — diz Denne, para quem o processo de redesign da comunidade ainda tem um longo e promissor caminho pela frente.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Designer mostra como seriam os sinais Wi-Fi se os pudéssemos ver em imagens em longa exposição

Um dos grande símbolos atuais do nosso cotidiano é algo invisível, mas sem o qual a nossa vida não seria a mesma: Wi-Fi. E confessamos que sempre tivemos a curiosidade de ‘ver’ o sinal do Wi-Fi, de saber como ele circula entre os espaços.

Parece que essa curiosidade não é só nossa – existe um aplicativo (exclusivo para Android) chamado Kirlian Device, que captura o alcance do Wi-Fi, e mostra em cores (vermelho para mais forte e azul para mais fraco) a intensidade do sinal.

Mas o designer Luis Hernan resolveu ir além e transformou a funcionalidade do app em um experimento, onde usou uma câmera com longa exposição para fazer imagens impressionantes, que mostram os caminhos percorridos pelo sinal. O trabalho resultou no projeto Digital Ehereal.

Veja as imagens e se deixe surpreender:




Separados por disputa judicial, herdeiros de Niemeyer prestam homenagem ao arquiteto

Mostra no Paço Imperial reúne projetos clássicos e inéditos, enquanto revista traz textos jamais publicados

Por Maurício Meireles

Projeto de restaurante na Lagoa é um dos inéditos da mostra que começa hoje no Paço Imperial: iniciativa da fundação gerida pela neta - Divulgação

RIO — O escritório de Oscar Niemeyer na praia de Copacabana está do jeito que ele deixou ao morrer, em dezembro de 2012. As obras completas de Eça de Queirós e as centenas de livros fazem companhia ao busto de Lênin e à caixinha de música que tocava a Internacional Socialista, entre outros objetos repletos de lembranças. Apesar de brigarem na Justiça pela empresa e por outros bens deixados pelo arquiteto, os herdeiros agora tomam a iniciativa — separadamente, diga-se — de homenagear a memória de Niemeyer. Assim, velhos objetos, desejos interrompidos, projetos não concretizados e papéis nas gavetas voltam à tona.

Uma das novidades é o retorno da revista “Nosso Caminho”, que Niemeyer editava com Vera, sua mulher. Já hospitalizado, pouco antes de morrer, ele discutia com ela como ficaria a edição que estava prestes a sair — e que acabou sendo guardada. Só depois de quase dois anos de luto, Vera volta à publicação, que traz projetos e textos inéditos deixados pelo arquiteto. A ideia, a partir de agora, é lançar duas edições por ano.

— Precisei esperar esse tempo para conseguir mexer na revista novamente. Mas está tudo do jeito que ele queria — afirma Vera Niemeyer.

Ela conta que o marido escrevia tudo à mão e não gostava de palavra difícil. Niemeyer, diz Vera, buscava a simplicidade em seus textos. Os escritos inéditos vão das lembranças da primeira visita ao local onde Brasília seria construída às recordações de suas viagens de carro ao Planalto Central, quando olhava para as nuvens e via nelas catedrais enormes, guerreiros romanos, monstros desconhecidos — e mulheres, é claro. Entre os projetos não construídos, a “Nossa Caminho” traz centros culturais em Foz do Iguaçu e no Marrocos, além da sede de uma empresa e um parque aquático na Alemanha.

CONCURSO PARA A CONSTRUÇÃO DO MARACANÃ

A segunda homenagem ao arquiteto surge por iniciativa de outra parte da família. A Fundação Oscar Niemeyer, cuja diretora executiva é Ana Lúcia, sua neta, inaugura hoje (ontem, 14/08) no Paço Imperial, para convidados, a exposição “Oscar Niemeyer — Clássicos e inéditos”, que já passou por São Paulo e é produzida pelo Itaú Cultural. Com curadoria de Lauro Cavalcanti, diretor do Paço, e projeto cênico de Pedro Mendes da Rocha, a exposição nasceu da descoberta, pelo professor Fares El Dahdah, da Rice University, de cadernos guardados pela fundação, com projetos que não chegaram a ser realizados.

— Em geral, eles não foram construídos por conta da desistência de clientes, por motivos financeiros ou políticos, como trocas de governo, no caso das obras públicas — afirma Cavalcanti.

Projeto de Niemeyer para o Maracanã - Divulgação

Entre os inéditos, está o desenho “Estádio Olímpico Nacional” (1941), que tirou o segundo lugar no concurso para a construção do Maracanã. Também há um conjunto de restaurante e espaços públicos na Lagoa Rodrigo de Freitas (1944), que ficaria em frente ao Cantagalo, e uma casa de praia que ele projetou para si mesmo, em Maricá. A exposição reúne ainda as residências de Oswald de Andrade (1938) e de Sérgio Buarque de Holanda (1953). Outro inédito é o projeto para a cidade de Negev, em Israel (1964), feito apenas três anos depois de Brasília e cuja ideia era permitir que todas as distâncias do local fossem percorridas a pé. Para a mostra, foram produzidas maquetes de alguns desses projetos.

— A ideia era fazer uma primeira exposição póstuma apenas com esses desenhos, mas também pensei que não seria justo sonegar, de uma pessoa que não conhecesse Niemeyer, informações sobre a grande obra que ele produziu — afirma Cavalcanti.

Por isso, a exposição traz uma linha do tempo que começa em 1936, com o prédio do Ministério da Educação e Cultura, no Rio, e termina em 2011, com o Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Avilés, na Espanha (2006/2011). Construções como o Conjunto Arquitetônico da Pampulha e os monumentos de Brasília, é claro, também ganham seu espaço. Assim, a mostra apresenta, com fotos, desenhos e detalhamento de cada projeto, a vasta obra do fundador da moderna arquitetura brasileira.

O arquiteto Oscar Niemeyer - Juliano Zucolotto / Divulgação

— Esta não é uma exposição apenas para arquitetos ou estudantes de Arquitetura — ressalta Cavalcanti. — É para o público amplo. A arquitetura não é uma coisa obscura, é algo fluido, para ser desfrutada pelas pessoas. Faz parte da vida de todo mundo.

Uma das grandes atrações da mostra é uma bobina de papel de 12,5 metros. Nela, o arquiteto demonstrou seu método de trabalho para o filme “Oscar Niemeyer — O filho da estrela” (2001), de Henri Raillard, que é exibido na exposição. Também será projetado “Oscar Niemeyer — A vida é um sopro” (2007), de Fabiano Maciel.

Outra curiosidade fica por conta de um desenho feito pelo arquiteto em 1975, a pedido de uma publicação soviética, sobre a cidade do futuro. Lauro Cavalcanti lembra que Niemeyer não era muito dado a esse tipo de previsão, mas, “talvez por ser um pedido da URSS”, criou uma cidade com habitações subaquáticas, novos transportes aéreos e aprendizado durante o sono. Nessa fantasia futurista, ninguém precisaria frequentar universidade, e as árvores cresceriam em questão de minutos.

ESCRITORIO EM BRASÍLIA NÃO FUNCIONA MAIS

As duas homenagens ilustram uma família dividida. De um lado, alguns dos netos e a Fundação Oscar Niemeyer; do outro, Vera Niemeyer e o escritório. Ao todo, são cinco herdeiros, representados por diferentes escritórios de advocacia. Vera, aliás, acaba de ser nomeada pela Justiça a inventariante do espólio do arquiteto. Isso quer dizer que, além de ser responsável pelo andamento legal do processo, ela se transformou na gestora da herança enquanto o processo do inventário durar.

Com essa mudança, o escritório do Rio de Janeiro, diz a viúva, passa a ser o único autorizado a negociar projetos de Oscar Niemeyer que ainda estejam em andamento. O escritório que o arquiteto chegou a ter em Brasília, portanto, não funciona mais. Entre os bens do inventário, estão ainda uma fazenda em Maricá, um apartamento no Rio e a Casa das Canoas, em São Conrado, que precisa de reforma.

— O Oscar não era uma pessoa mercenária, e acho que isso tem que ser respeitado durante esse processo. Acho que os herdeiros precisam respeitar os princípios dele — afirma Vera. — Nós temos conhecimento, de outros artistas, que muita coisa acontece após a morte, a obra não é respeitada conforme sua vontade. A coisa toma caminhos diferentes.

Retrato de Oscar Niemeyer - Carlos Scliar / Divulgação

Desde 2006, quando o arquiteto caiu em casa, fraturou o fêmur e sua saúde se deteriorou, havia boatos de que Niemeyer não desenhava mais e apenas assinava os projetos. Vera nega.

— Ele desenhava, sim. O Jair Valera (arquiteto que trabalhou por 30 anos com Niemeyer) entendia nos mínimos detalhes o que o Oscar queria — defende. — Ele via o que Oscar queria, desenvolvia e mostrava para ele ver se era aquilo mesmo. Quando não era, o Oscar rasgava.

Enquanto a briga judicial não se resolve, a companheira de Niemeyer desde os anos 1970 diz que não tira um objeto do escritório do lugar. Vera calcula que tenha mais de cem textos inéditos do arquiteto e, agora que conseguiu finalmente mexer na papelada, quer levar outros projetos adiante.

Fonte: Jornal O Globo - Cultura (assista ao vídeo).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Entrevista com Cesar Fraga, formado em Desenho Industrial pela ESDI

RIOetc entrevista César Fraga

Por Tiago Petrik



O fotógrafo Cesar Fraga é bisneto de uma beneficiária da Lei do Ventre Livre. “Beneficiária” bem entre aspas, pra falar a verdade. Pra quem matou aula nos tempos de escola, essa é a lei criada em 1871 que considerava “livres” os filhos de escravas nascidos a partir da data de sua promulgação. Porém, como os pais continuavam sendo escravos, as tais crianças poderiam ficar aos cuidados dos senhores – e assim continuavam trabalhando de graça até os 21 anos – ou sob tutela do Estado (o que era mais raro). A história familiar sempre foi ouvida com alguma curiosidade por Cesar, mas só – ele nunca foi, digamos, superengajado na questão.  Até pouco tempo atrás.

Tudo começou a mudar quando ele decidiu, há três anos, fazer uma viagem à África do Sul, para aprimorar o inglês – nada além disso. Depois de algum tempo, porém, percebeu que existia uma lacuna enorme, bem maior que o Oceano Atlântico, a separar as histórias do Brasil e da África.  “Percebi que, sendo fruto da mistura de portugueses, espanhóis, índios e africanos, sei tudo sobre as regiões da Espanha e de Portugal de onde vieram meus ancestrais, mas não sei de que tribo indígena venho, nem de que  e região da África. Índios e africanos foram os estuprados da história, e não têm direito nem a saber sua origem”, diz. Nasceu assim “Do outro lado” (Ed. Olhares, 243 páginas, R$ 80), lindo livro que Cesar acaba de lançar. Vem com textos de Ana Maria Gonçalves e Maurício Barros de Castro, que também o ajudaram a estabelecer o roteiro da grande viagem por nove países.

Em 56 dias, foram inúmeras as aventuras vividas em Cabo Verde, Senegal, Guiné-Bissau, Gana, Togo, Benim, Nigéria, Angola e Moçambique – todos “lugares de memória” da escravidão. De lá saíram boa parte dos 11 milhões de negros feitos cativos, quase metade deles tendo o Brasil como destino, ao longo de 350 anos. “Do outro lado”, portanto, é um livro para quem gosta de história, e muito bem ilustrada.
Cesar foi chamado duas vezes de “indiano”, e uma vez também foi confundido com um “branco”. “Isso era sempre uma oportunidade para eu dizer que o meu sangue é o mesmo que o deles”, conta. De fato, o fotógrafo viu – e clicou – muitas referências culturais que nos unem. “Estivemos em lugares que receberam “brasileiros retornados”, e eles levaram de volta também um pouco do Brasil. Em Lagos, por exemplo, tem um carnaval bastante parecido com o brasileiro”, diz. Cesar também retratou a religiosidade, os hábitos alimentares, festas populares e paisagens.
Foi uma viagem cheia de emoções. Por exemplo, quando colocou os pés nas ruínas do cais de Benguela, de onde os negros eram embarcados à força. E no Forte de São Jorge da Mina, em Elmina, em Gana. “Entrei na cela onde os escravos rebeldes eram colocados. Uma cela que se abria para que eles entrassem, e ficava fechada até que morressem de fome. Quando fecharam a porta para que eu fizesse as fotos, senti uma energia muito pesada e não consegui, na hora. Meu dedo travou, eu só chorava”. Quem folhear as páginas do livro também vai sentir um nó na garganta.
Fonte: RIOetc - Entrevista.

(Imagem retirada do site O São Gonçalo)
Conheça mais sobre Cesar Fraga em: http://www.cesarfraga.com/

Quinze mil arquitetos e urbanistas discutirão o futuro das cidades no Rio, em 2020

Expectativa do IAB é trazer grandes nomes da arquitetura para o maior congresso mundial do segmento

Por Ana Clara Otoni

Integrantes da delegação brasileira comemoram a vitória do Rio de Janeiro – Divulgação

RIO - É inegável a exuberância do Rio. Emoldurada por maravilhas naturais, a cidade se desenvolveu abraçando as diversidades culturais e aliando as transformações herdadas do Brasil colonial com a modernidade arquitetônica de Lucio Costa a Oscar Niemeyer. Foi essa miscigenação cultural que, mais uma vez, deu ao Rio o protagonismo de um grande evento mundial. Depois da Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e, em breve, das Olimpíadas de 2016, será a vez de a cidade sediar o XXVII Congresso Mundial da União Internacional de Arquitetos. O maior evento do segmento deve reunir 15 mil arquitetos e urbanistas de todo o mundo para discutir o futuro das cidades sob a luz do tema “Todos os Mundos. Um só mundo. Arquitetura 21", em 2020. O anúncio foi feito em Durban, na África do Sul, ontem, durante a XXV edição do evento, que ocorre a cada três anos. O Rio concorria com Melbourne, na Austrália, e Paris, na França, e contou com uma apresentação emocionante em sua defesa. Com a quarta maior delegação do evento, o Brasil, representado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e outras entidades do setor, contou com show de uma escola de samba, vídeos e pedidos de apoio dos representantes de outros países.

— Será a primeira vez que o Brasil, que nunca tinha se candidatado, vai sediar o congresso, estamos muito felizes. A escolha do Rio é um reconhecimento do modo como lidamos com as diversidade de nossas questões urbanas. O mundo do Século 21 é um mundo urbano, e os problemas que o Brasil enfrenta se reproduzem em várias outras cidades urbanizadas — comemorou Sérgio Magalhães, presidente do IAB.

Com um prazo de seis anos para se preparar para o evento, a expectativa do IAB é trazer grandes nomes da arquitetura para discutir o problema da expansão predatória das cidades. Mesmo sem programação definida (a expectativa é que o evento seja em julho), o presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, Washington Farjato, aposta na região central, em obras, para comportar o congresso mundial:

— Como o evento será quatro anos depois das Olimpíadas, poderemos discutir com propriedade o impacto do legado deixado no Rio. O congresso poderia ser sediado na região central. Seria muito bom ter arquitetos de todo o mundo circulando por ali, quando já devemos ter uma área mais revitalizada — projeta.

Fajardo defende que o futuro da humanidade será traçado nos países asiáticos e latino-americanos e que, neste cenário, o Rio possui uma posição especial devido ao seu histórico de desenvolvimento com preservação.

Por meio de nota, o prefeito Eduardo Paes disse que “a escolha retrata o atual momento de transformação por que passa a cidade. Uma transformação que, à luz do resgate de um rico passado histórico, projeta um futuro de desenvolvimento. O Rio tem características únicas: é uma metrópole que, emoldurada por uma natureza exuberante e uma arquitetura diversificada, tem grandes desafios sociais a enfrentar. Ou seja: é uma cidade síntese para o arquiteto do século 21”.

O historiador e professor da New York University Jean-Loius Cohen, especialista em arquitetura, comemorou a escolha:

— Dada a notável contribuição do Brasil para a arquitetura moderna e seu envolvimento na resolução dos problemas enfrentados pela cidade contemporânea, sediar o congresso mundial de arquitetos é mais do que merecido.

Quem também reforçou a relevância do país no cenário da arquitetura mundial foi o bisneto de Oscar Niemeyer, Paulo Sérgio. Segundo ele, o Rio, através de seu bisavô e de Lucio Costa, exportou conceitos que inspiraram arquitetos da atualidade, como Zaha Hadid, Norman Foster e Richard Meier:

— As pessoas precisam se aproximar da arquitetura. O lixeiro tem que conversar com o urbanista, não dá para ter uma rua que não comporte um caminhão de lixo direito, por exemplo. Além disso, esse evento será uma prova de fogo para os projetos realizados no Brasil para a Copa e Olimpíadas, porque arquitetos do mundo inteiro poderão opinar sobre eles aqui.

FEIRAS E FÓRUNS SIMULTÂNEOS AO EVENTO

O IAB deve realizar feiras e fóruns simultâneos ao congresso, para que a sociedade civil possa estar envolvida no evento mundial, segundo Pedro da Luz, presidente do departamento do IAB no Rio. Luz destaca a formação das favelas cariocas como um dos temas que deve ser somado ao debate.

— A favela é um tema que interessa muito ao terceiro mundo, por refletir o modo como o ser humano está construindo o seu espaço, já que não consegue ser absorvido pelos mecanismos de mercado.

Para o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, o congresso poderá direcionar tendências da produção arquitetônica e ditar práticas profissionais:

— Na política e na economia sempre há o discurso de quebrar barreiras, a exemplo da União Europeia, Mercosul e dos Brics. O congresso mundial é uma oportunidade de reunir arquitetos para driblar barreiras culturais, permitindo que um profissional possa atuar em qualquer lugar conhecendo suas especificidades.

Cavalcanti compara o potencial do evento ao Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, que ditou a Carta de Atenas (manifesto urbanístico que ditou tendências a toda a arquitetura mundial), realizado na Grécia em 1933.

— Esse manifesto orientou os arquitetos a usarem a linguagem modernista. Se você analisa a construção de Brasília, ela foi toda baseada nos princípios estabelecidos na Carta de Atenas. Temos condições de fazer algo semelhante aqui definindo tendências — defendeu.

O estudioso criticou um fenômeno que ele trata como “modismo em arquitetura”, no qual as construções ficam vulneráveis a certos estilos.

— Hoje toda cidade sonha em ter uma torre de Dubai, mesmo que isso não tenha nada a ver com o espaço, com a história e com os valores culturais e arquitetônicos daquele lugar. Isso não faz sentido e precisa ser debatido — disse.

A avaliação do presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), Haroldo Pinheiro, destacou a oportunidade que precisa ser aproveitada para discutir os novos rumos da arquitetura no país e no mundo.

— Serão 6 anos para que nós possamos trabalhar e explodir, em 2020, no Congresso do Rio de Janeiro, com nossas ideias e nossos pensamentos — afirmou Haroldo Pinheiro.

Para o pesquisador Renato Tomasi, autor do livro “Lares cariocas - Tendências Rio”, é exatamente o crescimento desordenado da cidade que faz do Rio um bom representante da cena urbana dos países emergentes.

— As cidades se urbanizam de uma forma muito rápida e o Rio exemplifica vários erros e acertos. Esse intercâmbio de informações com outros países é importante para se discutir modos de melhorar a vida das pessoas na cidade — disse.

Para Denise Pinheiro, ex-diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, a escolha do Rio é a consolidação da arquitetura moderna do Rio, representada pelos prédios do Ministério da Educação, o Aterro do Flamengo, o Instituto Moreira Sales e pela Barra da Tijuca.

— O Rio pulsa arquitetura da Zona Norte à Zona Sul. A expansão da Barra da Tijuca, o processo de renovação do centro da cidade, tudo isso tem trazido arquitetos mundialmente famosos para o Rio. Esse evento será a Copa do Mundo da Arquitetura, mas só com bons legados.

O evento contou com o especial apoio do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (Cialp) e dos Estados Unidos, já que a vinda do congresso para a América Latina representa a quebra de um jejum de 36 anos - a última vez edição por aqui ocorreu na Cidade do México, em 1978. O presidente do Cialp, João Belo Rodeia, que acompanhou a eleição do Rio em Durban disse que os arquitetos têm muito a aprender com a arquitetura do Brasil e do Rio de Janeiro em 2020:

— É uma vitória merecida, e todos os membros do Cialp ficam felizes com o resultado. Acredito que a realização do congresso no Rio será importante para a própria UIA, porque poderá centrar todos os países da América Latina. Para o Cialp, será um momento importante para a sua afirmação internacional. Creio também que será um momento central para a arquitetura e para os arquitetos, porque acredito que o Brasil é o microcosmo do mundo — afirmou.

César Freitas, do Instituto de Arquitetos de Cabo Verde, reforçou que as semelhanças entre o Brasil e os demais países de língua portuguesa fazem com que a escolha do Rio tenha valor também para eles.


— É como se todos nós estivéssemos organizando o congresso através do Brasil. Temos muitos traços em comum, a extensão territorial, o passado da escravatura, a história antropológica e o próprio Carnaval tem uma grande expressão para nós.Sou fã do Rio, vibramos de alegria — disse.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Designer cria trailer customizado para cães


Para aqueles que são apaixonados por conhecer o mundo viajando de trailer, mas nunca sabem o que fazer com o cachorro de estimação, o designer canadense Judson Beaumont tem a solução.

Feito apenas com materiais ecológicos e reutilizáveis, como alumínio reciclado, madeira compensada e plástico, a artista criou um tipo de trailer feito customizado especialmente para cães.


Rahyja Afrange e suas peças cheias de estilo

A paulistana Rahyja Afrange, que adora criar peças com múltiplas funções, ganha prêmios de design

Por Jacqueline Costa

Rahyja e sua poltrona SE7E

A designer paulistana Rahyja Afrange, de 28 anos, é daquelas que fala deixando sempre escapar um sorriso. E tem um lema que combina bem com sua simpatia e o seu apurado senso estético: “Viver bem, em ambientes encantadores”. A frase é quase um mantra para a moça, que não se cansa de repeti-la. Curiosa, Rahyja está sempre às voltas com um novo projeto, seja ele um móvel cheio de bossa ou uma linha de utilitários versáteis. Ela estuda materiais, rabisca folhas de papel, desenha no computador. Inventar é com ela mesmo.

E as invenções da paulistana têm conquistado reconhecimento mundo afora. Ela acaba de voltar de Berlim, onde expôs na área de Jovens Talentos do Festival de Design DMY (www.dmy-berlin.com), o maior festival alemão de design contemporâneo. Lá, exibiu suas mais recentes criações: a mesa lateral e o aparador SE7E, além das poltronas e cadeiras de mesmo nome e que deram origem à série. No ano passado, essas duas últimas foram premiadas na Feira Internacional de Móveis Contemporâneos de Nova York, a ICFF Studio (www.icff.com).

— Em Berlim, foi muito interessante perceber como valorizam o design brasileiro e também a madeira e o feltro como matéria-prima. Antes de chegar ao estande, as pessoas já sabiam que o trabalho era obra de uma brasileira — conta Rahyja, que, diante do sucesso das peças, acabou voltando para casa sem nenhuma para contar a história.

A caixa da linha feltro de lã pode ser usada aberta ou fechada

Mais um prêmio pode estar a caminho. Na Alemanha, seu trabalho foi selecionado para disputar o German Design Awards 2015, que é concedido a produtos inovadores criados por jovens talentos. Tanto os da linha SE7E quanto os da LAB. Aliás, as peças de feltro de lã da linha LAB têm formas e volumes que conferem múltiplas funções. Podem ser usados como centros de mesa, vasos, cachepôs, apoios de panela, organizadores, bandejas e o que mais a imaginação e a necessidade permitirem.

Rahyja deixa claro que gosta de peças simples e funcionais. Para conceber as da série SE7E, fez incansáveis estudos de ergonomia

— A estrutura contrasta com as ripas do assento e do encosto. É uma brincadeira de cheios e vazios, luz e sombra, linhas e curvas, para demonstrar como as peças estão conectadas. As ripas, sutilmente torcidas, ligam as partes frontal e posterior. Foram desenhadas para o corpo — explica.

Antes de chegar até aqui, a designer teve passagens por escritórios conhecidos, como o TEN, em Nova York, e o Bernardes Jacobsen, em São Paulo. Depois, embarcou para Copenhague, na Dinamarca, onde estudou Design de Mobiliário. Quando voltou para a capital paulista, resolveu abrir o seu próprio estúdio, na Vila Mariana. No Rio, as peças de Rahyja estão à venda na Arquivo Contemporâneo do CasaShopping.

Módulos, nichos e lâminas de estante substituem com mais praticidade móveis sob medida

Versáteis, peças podem ser usadas de acordo com necessidade da casa

Por Suzete Aché

 Painel com oito prateleiras, Finish, R$ 15.998

RIO — Sobe, desce, encosta e desliza. Pois é, assim são os módulos, nichos ou lâminas de uma estante. Somados, eles substituem com mais praticidade os móveis feitos sob medida, podendo ser levados para qualquer outro cômodo ou casa sem quebra-quebra. Rearrumados, o que é melhor, ao sabor dos nossos humores.

— O mais legal é que a pessoa, com o tempo, pode adquirir novos módulos e transformar as estantes — diz Maria Cândida Machado, da Interni, cuja estante Lego é formada por painéis e módulos em madeira ou pintados, com cubos de diversos tamanhos.


O mesmo diz André Tissot, da Sierra Móveis, que produz uma estante com módulos de tamanhos diferentes, da coleção Abraccio.

— Juntos, eles podem ser encaixados como um brinquedo de montar. A grande vantagem é poder transformar a estante de acordo com as mudanças da casa ou do apartamento.

Mas as opções são múltiplas. Na Hetty Goldberg são torres compostas de cinco módulos fixos que podem ser de cores diferentes. Na Terra Nossa são trios giratórios em madeira. Já na Florense, a ZigZag é um conjunto de ângulos e retas que produzem efeitos óticos, dando volumetria ao espaço.

Agora é só usar a imaginação e mãos à obra.