sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mostra acontece entre 11 de novembro e 20 de dezembro, com entrada franca

Entre 11 de novembro e 20 de dezembro, acontece a exposição Dimensões do Plano no Instituto Goethe, com entrada franca.
Com a proposta de apresentar uma mostra atual sobre design de comunicação, a exposição exibe exemplos de cinco áreas: fontes, design gráfico, mídias digitais, corporate design e sistemas de sinalização.
Com mais de 150 trabalhos de 41 escritórios de design, a mostra exibe as peças nos próprios baús onde foram transportados, transformando a própria concepção da exposição no tema.
O conceito design de comunicação usualmente compreende o layouts de fontes, logomarcas, cartazes, além do desenvolvimento de design de interfaces digitais.




FONTE: Catraca Livre

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Design de Interiores como estratégia


Soluções de ambientes arrojados e que saltam aos olhos, essas são as características que temos observado em vários hotéis no Brasil e ao redor do mundo nos últimos tempos. Estabelecimentos que usam como estratégia de diferenciação o investimento em um projeto profissional de design de interiores para atrair o público. Chama atenção o fato de não serem apenas os hotéis de luxo ou boutique a investirem no design. Os albergues (ou hostels) também tem adotado essa estratégia para atrair hóspedes exigentes nos quesitos qualidade e estética, e que no entanto, não estão dispostos a pagar grandes somas em uma diária.


Na Europa são tantos exemplos, que fica difícil até de escolher. O ambiente bem projetado, tendo em vista o público do hotel, amplia a experiência de uma viagem. E em uma sociedade de hiperconsumo como a nossa, segundo o filósofo Gilles Lipovetsky, as experiências vão ganhar ainda mais espaço na lista de desejos dos consumidores.


No Brasil ainda são poucas as opções, o que para os empresários do setor hoteleiro pode ser uma oportunidade. No entanto, já podemos achar alguns albergues explorando o design como diferencial no Rio de Janeiro e em São Paulo. Empresas que já perceberam que na busca por conquistar o consumidor, é preciso ir além dos tradicionais “bom atendimento e qualidade” escritos num cartaz na recepção.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Projetos de alimentos enchem mais que os olhos


Pense em design de alimentos e vem à cabeça aquele lindo prato, de um restaurante requintado, com ingredientes exclusivos descritos de forma a deixá-los ainda mais gostosos. Agora esqueça. Quando o assunto é o chamado food design, a beleza é a cereja do bolo. Mas a receita para a comida que consumimos nos servir melhor tem muito mais ingredientes. O assunto já está no menu dos designers echefs cariocas. Uma barra de chocolate projetada por Niemeyer e massas planejadas por um mestre-cuca engenheiro estão na mesa por aqui, ao lado de pratos bem mais prosaicos, para despertar o apetite e a discussão.


Por trás das massa Pissani, um chef engenheiro que projeta raviolis: quilo pode custar R$ 200 Agência O Globo

— Food design não tem nada a ver com aspecto. Isso é um problema nosso, brasileiro, porque a palavra design é muito parecida com desenho. Existe uma ideia de que, se você muda o aspecto de uma coisa, está fazendo design. Mas o conceito internacional do design está associado a projeto. E projeto não precisa ser belo, tem que funcionar bem. É claro que é bom que este projeto tenha bom aspecto, mas design está intimamente ligado à industrialização, ao interesse do mercado - explica Enrique Renteria, professor aposentado do Departamento de Artes e Design da PUC- Rio e especialista em design de alimentos que dá aula sobre o assunto em um curso de extensão na universidade. — O objeto tem que se adaptar ao homem. Um bom exemplo de comida ergonomicamente bem bolada é do inglês HestonBlumenthal, do concorrido restaurante Fat Duck, que se preocupou, ao fazer um hambúrguer, que a pessoa que fosse comê-lo não se sujasse. A maior parte dos chefes só fala de coisas sublimes, mas ele se dedicou ao hambúrguer. Mudou a espessura do pão, sem mexer na qualidade dele. E colocou ingredientes de forma mais adequada, sem transbordar. Já no Rio, o Joe & Leo's passou a vender batatas com o formato de uma carinha sorrindo. Não alterou em nada o sabor, mas a mudança de aspecto a torna mais aceitável pelas crianças e facilita a venda.

Segundo a designer Claudia Facca, no artigo "Puxando a sardinha para o design", food Design é a aplicação dos princípios do design na busca de soluções aos problemas do setor de alimentos. "Desenhar um alimento significa tornar o ato de comer um produto alimentar mais fácil e mais apropriado para uma configuração específica e para uma dada circunstância, em relação a uma perspectiva sociológica, antropológica, econômica , cultural e sensorial", escreve ela, acrescentando que o design de alimentos constrói produtos comestíveis que são ergonômicos, funcionais, comunicativos, visionários, interativos, mas radicalmente contemporâneos e atemporais. "É importante compreender que a sociedade está se modificando em aspectos antropológicos e sociais e, portanto, um produto deve atender a uma situação ou momento particular".

Para entender melhor, comecemos por um bom prato de massa, que já dá o que falar no exterior, onde há tempos se buscam modelos que melhor absorvam os molhos. A italiana Barilla, por exemplo, vende bem uma massa não tradicional chamada "castellane". O nome vem por ela ser parecida com a saia de uma dama da corte (castelã, do italiano "castellane"). Enrique conta que a ideia foi de Carlo Mori, fabricante de matrizes de bronze em Parma. A massa, com espaços internos, é produzida por trefilação (processo de empurrar a massa através de orifícios numa forma, preferencialmente de bronze) e pode ser encontrada nos supermercados cariocas.
— No início dos anos 1980, uma subsidiária da Barilla encomendou o design de uma pasta nova a Giorgetto Giugiaro, designer mundialmente famoso pela criação de veículos populares como o Golf, da Volkswagen, e o Uno, da Fiat, além de inúmeros carros de luxo e trens rápidos e modernos. Ela se chamou "marilla", mas não teve sucesso comercial, aparentemente devido a dificuldades em cozê-la uniformemente — relembra ele.

No Brasil, já tem engenheiro botando as mãos na massa. O chef uruguaio CarlosPissani - descendente de italianos que se radicou em São Paulo em 2007, e este ano trouxe suas criações para o Rio - usa o que aprendeu na faculdade para elaborar cerca de 40 tipos de raviolis ("toda massa recheada é um ravioli, que pode ser curvo ou ter linhas retas", observa ele) mais do que bonitos e gostosos:
— A engenharia me ajuda nas formas e me dá um conhecimento que permite saber se a massa vai abrir ou não ao ser colocada na água fervente. Na nossa linhaPremium, temos um modelo de desenho nosso, desenvolvido aqui, que é um triângulo de 10 centímetros de cada lado, com um buraco triangular no centro. Este buraco permite que a massa cozinhe de ambos os lados de forma perfeita - explica ele, lembrando que as peças são enormes e, geralmente, cada prato vem com duas unidades. - Massas como essa, só para terem a superfície de um lado colada à de outro, levam de cinco a oito minutos sendo preparadas. Também gosto de experimentar na cor e na textura. A farinha de arroz, por exemplo, dá à massa uma certa rusticidade, diferente da farinha de trigo, mais branca. Os recheios são de caviar, faisão, botarga... Por tudo isso, o quilo delas custa de R$ 180 a R$ 200.
Já o arquiteto Oscar Niemeyer usou seu talento para além do concreto, e projetou a barra de chocolate Q0 , lançada em 2012 pelo Aquim. Cada barra tem 80 gramas e 90% de cacau (sem adição de leite, ou qualquer coisa que não cacau e um pouco de açúcar), mas só é possível comprá-las numa caixa numerada, em embuia e acrílico, onde três delas são o ápice da degustação, feita com o auxílio de uma pinça de pontas folheadas a ouro, para que não se altere o sabor e a consistência do chocolate ao tocá-lo. Antes de chegar a elas, recomenda-se começar pelas pastilhas de chocolate com diferentes percentuais de cacau (sete de cada tipo, entre 30% e 70%). O preço da experiência? R$ 1.860, incluindo um chocolatier para ir à sua casa auxiliar no processo.
— Quando começamos a trabalhar com chocolates, fomos conhecer o cacau. E descobrimos que o sabor do chocolate que o mundo aceita como sendo chocolate é, na verdade, mas de baunilha. Nossa proposta era obter o sabor mais parecido possível com o da amêndoa do cacau. Chegamos ao nosso chocolate após um ano de pesquisas. Não estou dizendo que é bom ou ruim, mas que é diferente - defende Rodrigo Aquim. - Quando olhamos para ele, e ele era fiel ao propósito dele, pensamos no que fazer. Simplesmente não dava para comê-lo assim. A pessoa ia achar estranho, pensar que aquilo não era chocolate. Para ela provar, precisava ouvir uma história. E fizemos um livro contando esta história, que sai ainda este ano pela editora Senac. O design começa ai. E na letra Q. Uma letra que não vai levar ninguém a lugar algum. Mas está em Aquim. E seu símbolo lembra uma fechadura, significa a entrada em um universo. Também não queríamos uma barra, porque a barra associaria o nosso produto a algo que é velho. Então pensamos em chamar um designer para criar algo diferente. Tinha que ser um brasileiro, para uma proposta tão carioca. Num brainstorm em família, sugeri Niemeyer, pois tínhamos feito o bufê da festa dele de 100 anos. Ele topou um encontro, que acabou sendo o encontro entre duas famílias. A gente só tinha uma história para contar, e um chocolate esquisito para ele provar. E ele topou! Até então, ninguém tinha tido a ideia de tirar o chocolate "do chão". O nosso flutua, como numa espécie de espelho d'água.
Ainda acha caro?
- O Brasil hoje produz 500 milhões de quilos de chocolate ao ano. Nós, 240 quilos ao ano. O QO é fruto de um único lote de uma fazenda que tem 800. As castanhas do cacau são escolhidas pela minha irmã, Samantha, que o prepara. Usamos uma única forma, feita à mão pelo Caíque, bisneto do Oscar. Não é a toa que o nosso chocolate é um Romanée Conti - argumenta Rodrigo, comparando com o vinho francês que chega a custar R$ 90 mil a garrafa no Rio.

Enrique Renteria até acha que os vinhos são os melhores exemplos de design de produto, considerando que seus produtores, às vezes com um mesmo tipo de uva, conseguem planejar diferentes tipos de bebida, de acordo com as características que querem que cada um tenha. Mas ele dá mais exemplos que reforçam quedesign de alimentos não está ligado ao caro e sofisticado:
— Não existe um tribunal internacional que te proíba de chamar qualquer coisa defood design. Mas muitas coisas consideradas como tal não são bons exemplos. O ponto de partida para o food design é projetar (e não desenhar) um alimento que se encaixe com a maior parte dos cinco sentidos que o homem tem. E ter uma meta — define ele, citando exemplos que surpreendem. — As padarias oferecem alguns pães, doces e salgados, como colegiais, jesuíta e brevidade, com características de criação local. E há outros pratos cariocas, como a sopa Leão Veloso e o bife à Osvaldo Aranha, especificados e batizados pelos epônimos, que são tipicamente projetos de alimento. Houve um conceito, uma realização e, finalmente, uma adoção.

O designer Ricardo Leite concorda:
— Longe do formalismo acadêmico, podemos encontrar exemplos maravilhosos dedesign intuitivo. A pamonha é um desses casos. Um doce feito do milho, em que a própria folha da espiga serve como embalagem. Uma solução popular que pode ser incluída nos mais sofisticados conceitos de sustentabilidade: aproveitamento do produto e seus itens de descarte, uma embalagem que promove o conteúdo e também possui a função de proteção e transporte, assim como é uma espécie de guardanapo, ou apoio, para o consumidor não sujar as mãos.
Ainda assim, é difícil dissociar o conceito de belo do design. Que o diga quem vê ou prova as quase obras de arte do chef Felipe Bronze, do Oro.
— A estética é uma coisa muito presente na minha vida. Gosto do belo, e me preocupo com o volume e a textura dos pratos. Tento juntar funcionalidade à estética. Faço uma cavaquinha com purê de pistache, por exemplo, que tem um volume que dá vontade de comer — diz ele.

Além de unir a fome com a vontade de comer, o food design tem ajudado a alimentar a indústria, como explica a designer Luz Romero, sócia da VRD, empresa de consultoria em inovação:
— Não somos especialistas em um segmento específico, mas já fizemos trabalhos como um para a Eletrolux, em 2033, que partiu do food design para projetar máquinas para produzir os alimentos do futuro. O trabalho levou a empresa a patentear dois novos produtos. E toda a ideia partiu dos alimentos, do estudo do ato de comer e seus rituais. As comidas tendem a ter mais portabilidade, para que as pessoas comam no carro, em frente ao computador. A praticidade determina o sucesso de alimentos como a barra de cereal e a chamada finger food, para se comer com as mãos. Os alimentos são reflexo de comportamentos sociais, de histórias que as pessoas vivem.

FONTE: Jornal O Globo

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Fred Gelli: ecológico sem o exagero do politicamente correto

Fred Gelli, sócio e diretor da Táctil Design de Ideias: projetos com conceitos do ecodesign Camilla Maia / O Globo

Quando começou na profissão, há 25 anos, o designer Fred Gelli chegou a ser confundido com louco ou ecochato. Não era para menos. Num tempo em que pensar em matérias-primas sustentáveis era atitude rara — e até considerada insana — no mercado de criação de produtos, ele mesmo cortava e montava pastas e embalagens de papelão ondulado e vendia aos colegas do curso de design da PUC-RJ. No início, sua empresa, a Tátil Design, fazia também agendas telefônicas, porta-lápis e chegou a criar um broche-carrapicho (que soltava pedacinhos que grudavam depois de um abraço) para uma campanha eleitoral de Fernando Gabeira, em 1989, pelo Partido Verde. E por cerca de 10 anos quase tudo o que se produzia na agência era ecologicamente sustentável.


Passados 25 anos, Gelli e sua equipe não fabricam mais com as próprias mãos estes objetos ecologicamente corretos, mas a agência virou Tátil Design de Ideias, da qual é sócio e diretor, ainda cria projetos que seguem os conceitos do ecodesign. Com uma equipe de mais de 100 pessoas — entre elas, uma bióloga — em dois escritórios, no Rio e em São Paulo, a agência de design e branding assina a criação das marcas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, e já conquistou mais de 100 prêmios, entre eles, o Leão de Bronze no Cannes Lions 2009. Em breve, eles divulgarão mais um feito: a marca “Brazil Export”, que será usada para identificar os produtos brasileiros exportados para o resto do mundo. Tudo conquistado a partir da consulta ao “oráculo da natureza”, ensina Gelli.
— No começo da profissão, eu achava que ia desenhar cadeiras e luminárias incríveis, seguia o estereótipo do design na época, mas me deparei com uma professora que era muito alternativa e me desafiou. Eu tinha interesse por embalagens e ela me perguntou: “você já pensou na embalagem que te trouxe ao mundo, a barriga da sua mãe?” Ela me convidou a olhar para a natureza como uma projetista e até hoje sigo este princípio — conta Gelli, que há mais de 10 anos é professor do departamento de Design da PUC-RJ, onde dá aulas de Biomimética (ciência que busca inspirações e aprendizados na natureza).

Fred Gelli acredita que a natureza desenha soluções para os problemas do cotidiano das pessoas e das empresas. E, ao designer, cabe enxergar isso. E adaptar as respostas para o universo do design, da engenharia ou da arquitetura.
— A natureza está há 3,8 bilhões de anos desenvolvendo soluções para problemas muito semelhantes ao nossos. Não somos os primeiros a ter que lidar com superpopulação e planejamento de espaços comunitários e com captação de energia, por exemplo. No caso da geração de energia, as folhas das árvores são a melhor inspiração para se pensar em células fotovoltaicas (dispositivos capazes de transformar a energia luminosa, proveniente do sol ou de outra fonte de luz, em energia elétrica).

Em vez de ecochato, ecosexy
Mas é preciso ter cuidado com os produtos ecochatos, que só usam material reciclável para ser politicamente corretos, sem seduzir o consumidor.
— Eu e meus sócios, Gustavo Gelli, meu irmão, e Patrícia Pinheiro, minha ex-mulher, passamos 10 anos só criando e produzindo coisas que fossem completamente eco, dos materiais aos princípios de customização. Na época da Rio 92, lançamos os princípios criativos, que são usados até hoje. Uma das ideias que o grupo segue até os dias atuais é o de ser ecosexy e não ecochato. O produto ecochato é aquela solução de baixo impacto ambiental e baixo impacto sensorial. Acredito que as soluções que interessem às pessoas são as de baixo impacto ambiental, mas de alto impacto sensorial, estas são as soluções ecossexies — prega Gelli, cujo bisavô, o italiano João Gelli, foi um dos fundadores da fábrica de móveis Gelli.

Um exemplo disso, cita, é o Gátil, mascote e ícone da agência, cujo corpo é feito de polipropileno cortado em faca tipográfica e que tem pés de saquinhos de areia, confeccionados pela Coopa-Roca, cooperativa de costureiras da Rocinha. Quando jogado para o alto, o bichinho sempre cai em pé. Na parede da sala do designer, coloridas Tátilranas, luminárias feitas poliux, material de alta resistência e flexibilidade, também são representantes deste design ecológico atraente. Mesmo caso dos flyers impressos em folhas de árvore para divulgação de shows e eventos.
O processo criativo da marca Olímpica seguiram os mesmos princípios da natureza, mas tiveram um ingrediente a mais: a emoção. A marca foi fruto de um trabalho conjunto, colaborativo, em que todos os funcionários da agência, da telefonista ao copeiro, puderam opinar. O resultado foi uma marca tridimensional que remete a um abraço. Ou a uma brincadeira de roda, ou a um coração... Tudo depende do ângulo e do olhar de quem vê a peça, diz Gelli:
— A emoção é uma cola muito poderosa.

FOTOGALERIA: Design sustentável

Esther Mahlangu, referência sul-africana, vem ao Rio mostrar sua arte



Para conseguir um contato com Esther Mahlangu é preciso pegar uma estrada de terra no meio da pálida savana da África do Sul e só parar quando encontrar a placa colorida que diz “Esther está aqui”. Ela vive no vilarejo Ndebele, em Kwamalanga, a 40km a oeste de Pretoria, conhecido pelos muros pintados com desenhos geométricos e por abrigar a primeira mulher da tribo a atravessar o oceano para mostrar a arte do seu povo.
Nascida em 1935, Esther foi descoberta na década de 80 quando, durante o apartheid, resolveu pintar todas as casas da tribo com a técnica que aprendeu aos 10 anos com a avó, para mostrar que ali moravam pessoas tão vivas quanto as cores, e tentando, com isso, que ninguém fosse desalojado. Em 1986, pesquisadores franceses que viajavam em busca de movimentos artísticos tradicionais chegaram em Kwamalanga e se impressionaram com o trabalho de Esther. Três anos depois, ela, que não conhecia nada fora dos limites de sua tribo, estava abrindo uma exposição coletiva em Paris, no centro Pompidou.
— A fama mudou um monte de coisas na província. Com a minha fundação, fui capaz de proporcionar estudo para muitos jovens — conta Esther. — A pintura também mudou. Antigamente, usávamos penas de galinha como pincel. Hoje, só usamos as penas quando vamos ensinar como nossos antepassados faziam.
E Esther faz questão de ensinar. Ela dá muita importância à herança, ao conhecimento de quem já viveu muito.
— A cultura ndebele depende do que é passado de geração em geração para existir. A minha herança é a técnica da minha arte — garante ela, uma das poucas da tribo que usa diariamente os trajes típicos. As mulheres que trabalham fora da vila vestem os trajes apenas nos fins de semana. — Sou eu mesma que faço e não tiro nunca.
Depois de Paris, Esther participou de exposições por todo o mundo, levou os seus traços para meios tão variados o quanto pôde: da sapatilha Melissa a um BMW (foi convidada pelo Art Car Collection na mesma edição em que estavam Frank Stella e David Hockney).
— Adorei pintar os carros, tanto o BMW quando um da FIAT. O Fórum Nelson Mandela, na Itália, também foi marcante — enumera a artista, que ainda sonha em estampar um avião, um trem e um estádio (imagina um Maracanã ndebele, que sensacional).
Além disso, inspirou o estilista Alexandre Herchcovitch na coleção da primavera/verão 2007, e agora faz pinturas especiais para o festival Back2Black, que acontece no próximo fim de semana, na Cidade das Artes.
— As pinturas entrarão na cenografia e nas peças de divulgação. Também serão vendidos souvenires com a arte ndebele — conta Connie Lopes, a idealizadora do festival. — O nosso objetivo é apresentar uma arte africana contemporânea vinda das tradições.
Será a segunda vez que Esther virá ao Brasil e a primeira no Rio. Em 2009, ela esteve em São Paulo para badalar o lançamento da sua Melissa no SPFW, e aproveitou para conhecer Salvador.
— O que mais gostei foi do Mercado Popular de Salvador — pinça Esther, a melhor lembrança brasileira.

FOTOGALERIA: A arte gráfica de Ndebele Esther Mahlangu
FONTE: ela

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pictogramas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016

Pictogramas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 (Foto: Rio 2016)
O Comitê Rio 2016 apresentou no dia 07 de novembro, seus pictogramas esportivos. Desde Tóquio 1964, cada edição dos Jogos utiliza ícones gráficos, que refletem a cultura do país anfitrião, para apresentar os esportes. E, em 2016, pela primeira vez, as disciplinas Paralímpicas contarão com pictogramas próprios. Os Jogos do Rio contam com 64 pictogramas, sendo 41 Olímpicos e 23 Paralímpicos. (Confira aqui)
“Esse é um dos nossos diferenciais na história dos Jogos. Um fato inédito que vai servir de exemplo para os futuros comitês organizadores. Parabenizo a equipe de criação pela dedicação e trabalho conjunto com as diversas áreas que contribuíram para esse lançamento. ”, destacou o Presidente do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman.  
A palavra pictograma vem do grego e do latim. Na sua origem significa “palavra pintada”. Essa identificação original foi a fonte de inspiração dos primeiros traços: a tipografia oficial Rio 2016.
O projeto de desenvolvimento da Fonte Rio 2016, lançada em julho de 2012, foi uma das inovações, do programa de marca dos Jogos. O conceito tipográfico, desenvolvido pela Dalton Maag, foi inspirado nas letras e números do logotipo Rio 2016 e na essência dos Jogos, paixão e transformação, que une as marcas Olímpica e Paralímpica.
Baseada nas curvas do Rio, a Fonte representa elementos como o calçadão de Copacabana, que está presente nas letras 'm' e 'n' e a Pedra da Gávea, que está representada na letra 'r'. As letras são desenhadas com um único traço contínuo, num movimento ágil e fluido que sugere o movimento dos atletas.
Ilustração mostra parte do processo criativo dos pictogramas dos Jogos Rio 2016 (Foto: Alex Ferro)
Os primeiros traços foram feitos à mão, depois da pesquisa de imagem de cada esporte. Estes traços foram reconstruídos no computador com o encaixe das curvas das letras. O corpo dos atletas e os equipamentos esportivos foram construídos a partir dos caracteres ou de parte deles, num traço contínuo, com variações de espessura para dar a ideia de profundidade. Os seixos, que são uma característica da linguagem visual do Rio 2016, fazem o suporte dos desenhos e alteram sua forma de acordo com os diferentes movimentos dos atletas.
No desenvolvimento dos pictogramas Paralímpicos, a equipe de designers do Comitê Rio 2016 procurou retratar a integração das diferentes deficiências dos atletas com o esporte de forma equilibrada, com naturalidade, por meio de próteses, vendas nos olhos e outras indicações.
A diretora de Marca do Comitê, Beth Lula, explica a importância dos pictogramas para engajar o público no evento desde cedo.
“O uso dos pictogramas daqui até 2016 servirá como plataforma de comunicação para a promoção dos esportes, ativação dos parceiros e irá marcar toda a identidade visual dos Jogos, o que inclui sua aplicação na decoração das instalações, na sinalização, nos ingressos, nos produtos licenciados, entre outros”, afirmou.
O trabalho foi executado em 16 meses, dos quais 5 foram dedicados à validação das 42 Federações Internacionais.O Comitê optou pela montagem de uma equipe interna de design para a criação dos principais elementos gráficos dos Jogos, provavelmente um dos mais complexos projetos de design do mundo. Além dos designers, um grupo de 28 profissionais esteve diretamente envolvido no desenvolvimento dos pictogramas.
Veja mais fotos clicando aqui.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Asas (e páginas) à imaginação

Campos: Bancos e sofás da Ovo

Cadeira que não foi feita para sentar. Mesa que pode ir parar no teto. Fugindo ao ideário funcionalista que imperou entre os anos 1920 e 1960, o período contemporâneo trouxe aos móveis produzidos no Brasil aspectos comunicativos e estilísticos que os tornaram verdadeiras obras de arte. E para registrar e explicar a mudança, a FGV Projetos lança o livro "Móvel brasileiro contemporâneo", uma sequência para seu bem-sucedido "Móvel brasileiro moderno", de 2012, que abordou o período de maior importância da arquitetura brasileira - refletido na produção nacional de mobiliário.

O novo trabalho retrata a produção de móveis desde os anos 1970 até a atualidade, por meio das obras de 63 grandes nomes da área. Irmãos Campana, Índio da Costa, Claudia Moreira Salles, Lattog, Isabela Vecci e Hugo França são apenas alguns deles.

- Mantivemos nosso objetivo principal, que é o de deixar um registro da produção brasileira, mostrando à sociedade que o móvel é algo rico. No caso do contemporâneo, não é só utilitário, mas também artístico, transgressor. Pode haver cadeira onde não seja possível sentar, por exemplo. É interessante observar ainda a relação que as pessoas têm com seus móveis. O gosto é variadíssimo - diz Silvia Finguerut, coordenadora do projeto.

Cores, antes clássicas; agora difusas

Princesinha: Poltrona "Copacabana", da Lattoog


O lançamento da publicação aconteceu dia 23, já durante a Semana Design Rio. Diferentemente do livro anterior, que explicava o período modernista dividindo-o em décadas, o novo começa com textos de Adélia Borges, Paulo Herkenhoff e Rafael Cardoso - trio responsável pela seleção das obras - situando o leitor quanto ao contexto histórico e às mudanças que o design vinha sofrendo no mundo. Na sequência, aparecem os perfis dos profissionais.

- Rompemos a narrativa linear e, em vez de fotografarmos as peças, coletamos imagens feitas pelos próprios artistas. É uma forma de dialogar com a dinâmica contemporânea - diz Silvia, que destaca alguns nomes. - Resgatamos a ousadia da Claudia Moreira Salles e seu desenho Superclean , que se inspira no clássico e renova; mostramos a rebeldia da dupla Leonardo Lattavo e Pedro Moog, do Lattoog, que pode se inspirar no calçadão de Copacabana, por exemplo, para criar uma cadeira; evidenciamos a atenção aos contornos da Isabela Vecci, que se inspira nos traços da cidade; capturamos a singeleza do grupo alagoano Ilha do Ferro, que traz um trabalho mais rústico; e ainda a flexibilidade do Hugo França, que pode ter peças tanto em Inhotim como na casa das pessoas.

Depois de falar do surgimento de um estilo brasileiro de móveis - "o que havia antes eram peças meramente utilitárias, muitas copiando o estilo francês da época", lembra a coordenadora -, "Móvel brasileiro contemporâneo" explora o momento em que o design nacional tornou-se internacionalmente conhecido, na virada do século XX para o XXI. A principal diferença percebida é o exercício da liberdade formal:

- É até difícil apontar uma característica predominante nos móveis contemporâneos, porque eles buscam a ruptura com o estilo padronizado. Não há repetições. A forma é a liberdade, e isso está também na combinação de materiais e no uso das cores. A madeira continua sendo uma característica muito forte, mas a tecnologia traz outros cortes, além de acrescentar materiais,como plástico, acrílico, metal e vidro. As cores, que no período Moderno eram mais clássicas, agora são difusas. Não há medo de usar a cor, de errar.
Fonte: Jornal O Globo

Designer Industrial cria impressora que imprime roupas


Imagine se você tivesse uma destas impressoras em casa? Ao invés de ter que ir à loja ou mesmo comprar online e esperar o pacote, você poderia comprar cartuchos de lojas, colocar dentro da impressora e imprimir a última coleção. Ou melhor, utilizar as roupas velhas como material pra a impressão da roupa nova. 

Joshua Harris, um designer industrial, viu que nós desperdiçamos muito quando se trata de produção de roupas. Não só a perda e descarte dos materiais durante todo o processo e ciclo, mas também as roupas velhas, máquinas de lavar e secadoras ocupam muito o espaço físico.
Pensando no crescimento das cidades até 2050, Harris criou o projeto da impressora que não beneficiará somente o consumidor final, mas também toda a indústria do vestuário. Os estilistas poderão vender cartuchos com suas estampas e materiais e pela internet, disponibilizar o design/molde para ser impresso. As lojas podem criar cartuchos com seus últimos lançamentos.



FONTE: Design Brasil

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Livro sobre grafite em SP reúne imagens que foram apagadas nos últimos 8 anos

Varal com roupas em Higienópolis, artista desconhecido (apagado)

O fotógrafo Ricardo Czapski, 45, estava a caminho do dentista quando clicou um varal de roupas pintado num muro. Uma semana depois, no retorno da consulta, encontrou um borrão branco no lugar da ilustração. Clicou de novo.
"É sempre assim", diz. "O artista faz o desenho, ele fica ali um tempo e a prefeitura cobre de branco."
A boa nova é que parte desses "grafites fantasmas" está de volta graças ao recém-lançado "Graffiti SP" (R$ 59). O livro reúne fotos de obras de 80 artistas de rua, captadas entre 2005 e 2013 em vários bairros de São Paulo.
Entre os autores, figuras conhecidas como Crânio, Speto, Chivitz, Paulo Ito, Mundano, Marina Zumi e Magrela.

Elefantes pintados por Treco na av. Sumaré (apagados)
Segundo o fotógrafo, a avenida Sumaré, em Perdizes (zona oeste), é um dos lugares onde mais imagens são apagadas na cidade.
"Um muro dali já mudou de grafite umas cinco ou seis vezes", diz.
Alguns desses casos resultam em estranhas "mutações".
"No livro tem um polvo grafitado na Vila Madalena, fotografado em 2009. Hoje, quem passa lá vê um caramujo."

Pessoas carregando casas, de Mauro Neri, na av. Brigadeiro Luis Antonio (apagados)

CÓDIGO DE ÉTICA
Neto de Wolfgang Pfeiffer, curador do MAC-USP nos anos 70 e 80, Czapski diz que existe um "código de ética muito sério" entre os grafiteiros.
"Quando um artista pinta em cima do do outro é porque tem autorização. O 'pau come' se alguém destrói o trabalho alheio", diz.
Para o fotógrafo, a maior dificuldade é com os pichadores, "que não respeitam muito".
"Os grafiteiros são uma comunidade pequena, todo mundo se conhece e se respeita. Os caras nao ganham nada para pintar rua. Pelo contrario, eles gastam com tinta e transporte."

Macaco pintado por Treco na ponte da Cidade Universitária (apagado)

Quem ficar curioso não precisa ir até a livraria. Como os próprios grafites, visíveis a qualquer um que passar na rua, a publicação tem download gratuito pelo site > www.graffitisaopaulo.com.br.

FONTE: Folha.uol

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Exposição “The World of Design” chega a Hamburgo


Com mais de 200 convidados ilustres do mundo do design, o Fórum Internacional iF celebrará a abertura oficial de sua nova exposição em Hamburgo. Exemplos de produtos, embalagens e cases de comunicação do mundo inteiro estarão em uma exibição permanente de 1500 m².
As exposições de design organizadas pelo iF ao redor do globo têm uma missão específica : aumentar a conscientização do público em geral de design. A nova localização no HafenCity em Hamburgo agora oferece condições ideais para este propósito: " Devido ao seu sofisticado estilo arquitetônico , a localização central e sua influência internacional,  HafenCity é um centro de atração para o público em geral interessado em design e arquitetura ", comentou Ralph Wiegmann , diretor do iF Internacional Forum Design GmbH .
Desde 1953, o iF tem se destacado entre as maiores e mais reconhecidas instituições de design do mundo. Dentre suas atividades o destaque está nas premiações conhecidas como IF Design Awards, que acontecem anualmente. O iFDesign Awards está entre os maiores e mais importantes prêmios internacionais de design e o selo - que  é mundialmente conhecido - é   sinônimo de qualidade.


Endereço e horário de funcionamento:

Exposição iF
 Elbarkaden / HafenCity
Hongkongstraße 6
Hamburgo, 20457

Horário
Terças a domingos, das 11 às 18h 
Preços

Adultos: € 5.00
Entrada promocional: € 3.00
Crianças: grátis

Mais informações: www.ifdesign.de


FONTE: Design Brasil

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Marca que nasceu na hungria adapta bordados tradicionais aos acessórios e conta um pouco da história não muito conhecida do país

Na primeira vez em que Bruna Seve Patko foi à Hungria, ela ficou encantada com o folclore exuberante do país e impressionada, ao mesmo tempo, com a falta de interesse por ele. A designer não viu cores pelas ruas por onde andou, embora algumas fases da história do país tenham sido pintadas com bordados coloridões.
- Depois, descobri que ninguém usava a cultura e suas cores porque elas têm uma conotação política: queriam dizer que você era a favor do governo ou de direita. Mas eu achava tudo lindo e percebia que eles estavam perdendo tempo de não usar isso na moda - conta Bruna, carioca, que há 13 anos saiu do Brasil para estudar Moda em Nova York e acabou se casando com um húngaro e morando dez anos em Budapeste.
Como um olhar aberto desde pequena - ela é filha de Frederico Seve, galerista, e da jornalista Cristina Aragão -, Bruna, 32, morou em Florença, formou-se em Fashion Design e Marketing pelo Fashion Institute of Technology (FIT), estagiou em marcas como Tod's e Celine, em NY, e trabalhou na Nike e nas marcas locais Tisza e Nanushka, na Hungria.
- Mais do que no processo de criação de peças, meu foco era relações públicas, estratégia de marca, vendas e merchandising. Gostava mais de estar em contato com pessoas do que ficar imersa em uma confecção - admite.
Desta maneira, ela foi conhecendo o leste europeu, das grandes cidades às micras, e percebeu a importância de respeitar o artesão e de saber quem faz a sua matéria-prima.
- Com essa bagagem, e depois de oito anos morando na Hungria, quis começar, enfim, uma pequena produção de acessórios usando aquelas formas e cores que me encantaram tanto quando conheci o país - relembra.
Nasceu aí a Lokal Wear (lokalwear.net)com uma coleção de brincos e colares com referência aos rendados richelieu do sudeste da Hungria e ao bordado Matyó do leste.
- Quero aproveitar para levar a identidade cultural à moda e dar o crédito, contar a história. Na peça, faço um twist para descontextualizar, mudo o material, o uso. Acabo surpreendendo - percebe Bruna, que já tem ponto de venda na Dona Coisa, Sala de Estar, Q-Guai e Étoiles, espaço da designer Helena Sicupira em São Paulo. - Fora isso, a marca é sustentável, usa mão de obra alternativa, como aposentadas e pessoas com deficiência física e mental.
De volta ao Rio, adaptando-se à Copacabana, ela pretende ampliar a marca para a cultura brasileira. Já está vidrada nas rendeiras do Cariri e tem viagem marcada para o Mato Grosso do Sul.

FONTE: Caderno Ela

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Uma máquina de ideias em busca de uma fábrica


Gilson Martins é o homem-bolsa. Desde que começou a confeccionar o produto que o lançou e projetou seu nome no mercado — aos 17 anos, cursava a faculdade de Belas Artes e teve que fazer uma mochila nova com tecido dado pelo pai estofador, Seu Nilo, porque a sua arrebentara —, ele ficou conhecido como Gilson Bolsas. Aos 49 anos, o cenógrafo, designer e empresário mostra que sua cabeça, nada compartimentada, é um grande porta-ideias de objetos, que vão de bijuterias (sua primeira coleção acaba de ser lançada) a móveis, passando por papéis de parede e relógios. Estes últimos, da sua linha Home, já o levaram duas vezes a Milão e às exposições Rio + Design deste ano e do ano passado, que ocorrem paralelamente ao Salone Internazionale del Mobile. Difícil é materializar e comercializar tantos e tão diferentes itens, que têm como referência os principais símbolos do Rio, na velocidade em que são criados.
— Em 2002, quando viemos para a atual loja de Ipanema e tínhamos um espaço para exposições, criei a mesa Brasil (com o mapa do país como tampo) e os bancos Pão de Açúcar, para que as pessoas pudessem se sentar — relembra Gilson, esparramado num par delas, confeccionado em cores por um marceneiro. — Foi quando veio a oportunidade de lançá-los na Rio + Design, em 2012. Era a época da Rio + 20, e a ONU me pediu 12 deles, seis pares, para o lounge dos chefes de Estado. Soube que, depois, dois deles foram para o gabinete da presidente Dilma, em Brasília. Aí, começou a vir gente querendo comprar. Eu vendo, mas tenho que pedir ao meu marceneiro para fazer. Tenho quem queira comprar, mas não quem faça em escala maior.
O problema não acontece só com os dois módulos — produzidos em compensado reciclado e revestidos com folheado de madeira pré-composta nos padrões peroba mica catedral e jacarandá catedral —, que, combinados, possibilitam várias formas de assento para até seis pessoas, do banco simples à chaise longue. Os revestimentos de parede, desenvolvidos pelo designer em 2012, também só “saíram do papel” para a sala do próprio Gilson, que, pensando na sustentabilidade e na responsabilidade social, planeja que as padronagens sejam impressas em sarja feita 100% de garrafas PET.
— Da mesma forma que os bancos, falta quem fabrique. Eu forrei uma parede da minha casa com um que eu mesmo produzi. Sempre fui faz-tudo. Tirava paredes, colocava pisos, pintava... Era um pedreirinho já aos 13, 14 anos. Minha casa é meu maior mostruário — diz o designer, que cresceu no Santo Cristo, filho de um estofador e de uma costureira de confecção, com os quais aprendeu a dar vazão à criatividade.
Lá atrás, no Santo Cristo, estão as maiores referências do designer, que hoje tem uma fábrica no subúrbio, onde 30 funcionários produzem cerca de 300 itens, vendidos em suas três lojas no Rio.
— Essa influência toda que tenho das paisagens do Rio saíram da vista da minha casa. De um lado, eu via o Pão de Açúcar, o Cristo, Santa Teresa e a Avenida Presidente Vargas, com direito aos desfiles de carnaval. Do outro, a Central do Brasil, a Baía de Guanabara, a Igreja da Penha... — relembra ele que, em 1990, ao mostrar seu portfólio à curadora de artes Sheila Lerner, foi incentivado a fazer as bolsas-esculturas.
Ele já havia se aventurado pelo mundo dos móveis, mas em causa própria.
— Meus primeiros objetos sem ser bolsa foram móveis: quando fui morar sozinho, no Leblon, arranjei uma madeira bem baratinha e fiz duas estantes vazadas, para dividir um ambiente em dois.
Das casas para a rua: o banco Pão de Açúcar chegou a ser projetado em pedra, para servir de mobiliário urbano. Tanta criatividade pode ser escoada, garante Dulce Ângela Procópio de Carvalho, subsecretária estadual de Comércio e Serviços:
— Há mais de 60 indústrias de móveis no estado, que querem produzir com designers. Muitas vezes, os designers não sabem disso — diz. — É preciso juntar os dois lados. Para isso, tanto a Firjan quanto o governo do estado estão trabalhando. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Prédio condenado em Paris vira ‘maior obra de street art do mundo’

Prédio situado às margens do Rio Sena: durante sete meses, grafiteiros fizeram intervenções Terceiro / Fernando Eichenberg

As portas só são abertas ao público às 12h, mas por volta das 10h a fila de curiosos começa a contornar o prédio situado no número 5 da Rua Fulton, às margens do Sena, 13º distrito de Paris. De terças a domingos de outubro, até às 20h, 49 pessoas por vez são autorizadas, por motivos de segurança, a visitar o edifício abandonado, que será demolido nos primeiros dias de novembro. O motivo? Durante sete meses, 105 grafiteiros de 18 países, Brasil incluído, usaram e abusaram, interna e externamente, dos 4.500m2 distribuídos em nove andares e um subsolo do imóvel condenado para expressar sua arte. Batizado de Torre Paris 13, o trabalho coletivo está sendo chamado de “a maior obra de street art do mundo”.
O idealizador do projeto, Mehdi Ben Cheikh, de 38 anos, dono da galeria Itinerrance desde 2004, procura há três anos fazer do bairro parisiense “um museu a céu aberto”.
— Trago artistas de cada canto do mundo e faço com que intervenham em grandes muros. Considero isto minha prática urbana como galerista. E com isto acabei conhecendo todos os donos de imóveis dos arredores — explica.
Mehdi soube do prédio que seria destruído no Quai d’Austerlitz, considerou o local ideal para os grafiteiros se expressarem e obteve o acordo dos proprietários e o apoio da prefeitura do bairro. A ideia inicial era intervir apenas na parte externa, mas o projeto ganhou contornos mais ambiciosos, e os 36 apartamentos do edifício foram apropriados por artistas de diversos países da Europa, dos Estados Unidos, da Austrália, da Tunísia, do Irã, da Árabia Saudita e da América Latina (além do Brasil, México, Chile, Uruguai e Argentina). Entre eles estão nomes como o tunisiano El Seed, o chileno Inti Castro, o mexicano Stinkfish, o português Pantonio e o iraniano A1one, um dos precursores do grafite em seu país. O Brasil marca presença com sete representantes paulistas: 2mil, Ethos, Herbert Baglione, Loiola, Rapto, Speto e Tinho.
Mehdi aproveitou a passagem de artistas como convidados de outros eventos, ou contatou os grafiteiros em seus países para participar da “Torre Paris 13”. Para o grupo Rapto foi reservada toda a parte frontal externa do prédio.
— Eu enviei antes a foto para eles no Brasil. Fizeram um churrasco lá com outros grupos de São Paulo, e cada um deles desenhou um dos andares. O Rapto veio e fez o trabalho por todos. O que temos aqui é um condensado de São Paulo em Paris — conta o galerista.
A arte produzida pelos mais de cem grafiteiros reflete preocupações políticas sociais — como a guerra na Síria, a opressão contra as mulheres, o racismo, a xenofobia, a ecologia — ou expressões puramente estéticas, numa variedade de abordagens e de estilos.
O subsídio público recebido para todo o projeto foi de apenas 5 mil euros. Os artistas utilizaram seu próprio material e trabalharam sem cachê. Mehdi não contava que a iniciativa teria tanta repercussão.
— Não esperava tanto sucesso. Não era este o objetivo, mas é claro que é bom — reconhece. — Todos trabalharam gratuitamente. Não há dimensão comercial, não é cobrada entrada, não há nada para vender, e tudo será destruído.
No entanto, a efêmera “Torre Paris 13” será eternizada em livro e também em documentário. Desde o início da aventura, o cineasta Thomas Lallier tem registrado todas as etapas do projeto. “Além da filmagem, vivi uma rara experiência humana, em que talvez importava mais o processo do que o objeto final”, escreveu o diretor no site do projeto.
Para o encerramento, o plano é iniciar a demolição pelos muros externos, para que os apartamentos possam ficar à mostra, conta Mehdi:
— Montamos um roteiro de filmagem para o fim. Queremos colocar câmeras no interior do edifício. E, se conseguirmos recursos, transmitiremos tudo ao vivo pela internet, para que se possa assistir à demolição de qualquer parte do mundo. Será uma performance artística, como Jean-Pierre Raynaud, que destruiu sua própria obra.
O trabalho dos grafiteiros poderá ser preservado pela internet. Por dez dias, após 1º de novembro, as obras poderão ser salvas virtualmente no site da Torre (www.tourparis13.fr).
Fiel ao seu meio, Mehdi Ben Cheikh acredita que a street art é o “maior movimento artístico em voga”. Para ele, quando se recordar daqui a 50 anos do começo do século XXI, o destaque será dado a este tipo de arte :
— Todos os grandes movimentos sofreram com o menosprezo no início. Os impressionistas tiveram o Salão dos Recusados (em Paris, em 1863, onde os pintores expuseram obras rejeitadas na mostra oficial). Quando se inova, isto incomoda, e as pessoas dizem que não é arte. É um dos sintomas de que a street art é um grande movimento — defende o galerista.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Uma nova galeria será inaugurada na Lapa

Galeria em prédio do século XIX: mostra “Casa brasileira” sobre a vida nos anos 1950 Agência O Globo / Divulgação

A cidade ganha um presente na Semana Design Rio: o grupo Rio Scenarium aproveita o evento para inaugurar a Galeria Scenarium, um espaço para exposições aberto num casarão recém-restaurado no número 13 da Rua do Lavradio, no Centro. Construído em 1874, o prédio — com fachada decorada por azulejos portugueses e seis balcões em cantaria abaulada — tem 1.400 metros quadrados distribuídos por três andares. No lugar em que, no século XIX, moravam pessoas próximas à família real e que, desde então, já foi brechó, tinturaria e padaria, o público vai poder apreciar mostras como “Casa brasileira”, que apresentará vários ambientes de época, decorados com móveis e objetos que compõem o acervo histórico do Rio Scenarium, em parceria com a Movelaria Belmonte e o La Botica da Jane, com peças do Scenarium Antique. A seleção tem a curadoria da museóloga e especialista em cultura e história brasileira Eloisa Ramos Souza, ligada ao Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz, e ambientações de Elma Cola, decoradora responsável pelo visual do Rio Scenarium e de outras casas do grupo.
— Já é nosso terceiro imóvel nesse quarteirão da Rua do Lavradio. A obra seria concluída em dezembro para que ele fosse inaugurado em março. Mas a gente correu para antecipar a abertura por causa da Semana Design Rio. Só o piso do térreo não estará pronto, será colocado depois da exposição. Concentraremos essa e as outras duas exposições no térreo e no primeiro andar. O último ficará para depois. Lá, teremos um centro de treinamento para executivos, voltado para educação e arte, com direito a cozinha experimental — explica o empresário Plínio Fróes, à frente da empreitada. — É uma alegria e uma oportunidade abrir as portas na Semana Design Rio, a primeira de muitas que virão. Para a gente, é um privilégio participar desse evento, da maior importância. Tanto que fizemos um grande esforço no sentido de inaugurar agora. 
Novas mostras pensadas para o espaço
Além da “Casa Brasileira” — em que será possível conferir ambientações de residências brasileiras de acordo com épocas e estilos, principalmente art nouveau, art déco e design dos anos 50, 60 e 70 —, também estará em cartaz a exposição “Do moderno ao contemporâneo — O design brasileiro de móveis”, com cadeiras, poltronas, bancos e outros assentos de nove designers modernos e 19 contemporâneos, entre eles Sergio Rodrigues, Irmãos Campana, Guto Indio da Costa e Zanini de Zanine.
— Essa exposição entra no lugar da “Portrait”, que não pôde ser viabilizada a tempo pelo pessoal da Mercado Moderno, que estava organizando a outra mostra e a substituiu. Teremos também um espaço dedicado a Aída Boal, com objetivo de reforçar o valor e a importância dela para o mercado — acrescenta Plínio. — O Rio Scenarium tem um acervo muito grande que não está exposto ao público por falta de espaço ou, em alguns casos, porque são peças muito valiosas para ficarem expostas num bar. Mas nossa curadora, Eloisa, já tem material para dez mostras. Entre elas, uma será sobre azulejos, do século XVII até o XX, e ainda outras sobre os acervos da cantora lírica Nadir de Melo Couto e do músico Albino Pinheiro (tombado pela Secretaria municipal de Cultura).