quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Cadeira que nasceu há 80 anos volta à decoração em versão original ou repaginada



Ela está prestes a completar 80 anos, mas sua forma enxuta e jovial a transformou em sensação. A cadeira batizada de Modèle A e mais conhecida como Tolix (nome da marca francesa responsável por sua criação) caiu no gosto de arquitetos e amantes do design por aqui. Basta dar uma olhadinha nos mais recentes projetos que se destacam em livros, revistas especializadas, mostras de decoração e lojas para comprovar que a magrelinha está com tudo.
Feita de aço inoxidável e pensada originalmente para ser usada em espaços industrias, como fábricas, ou em hospitais e escritórios, a cadeira é elogiada pelos novos fãs por seu lado simples, elegante e confortável, apesar da aparência um tanto “fria”. 

O arquiteto Ricardo Melo tem duas iguais, amarelas e com braços, na sala de seu apartamento, no Arpoador.
— Ela virou tendência por essa busca atual pela simplicidade, pela naturalidade, sem muita sofisticação. Este é o novo luxo — aposta Ricardo, que encomendou, juntamente com o sócio Rodrigo Passos, versões douradas para seu espaço na Casa Cor deste ano (a mostra abre na próxima quinta-feira).

Em cartaz atualmente, a exposição Morar Mais, na Lagoa, mostra alguns modelos em diferentes funções. No espaço chamado de Apartamento do Geólogo, ela fica na frente de uma mesa de trabalho, assumindo o posto de cadeira do home-office. A arquiteta Kelly Almeida conta que quis dar uma pegada industrial ao projeto.
— Ela tem essa aparência industrial, tão em alta, que se encaixou perfeitamente na proposta — diz. — Mas, na verdade, dá para usar em qualquer tipo de ambiente. Consigo imaginá-la branquinha numa escrivaninha de madeira clássica para um quarto mais provençal e romântico, por exemplo.

A francesinha nasceu em 1934 pelas mãos do artesão Xavier Pauchard, um pioneiro da técnica de galvanização no início do século passado, que fundou a marca. Cerca de dez anos atrás, a Tolix, instalada na região da Borgonha, passou por uma crise e quase teve as portas fechadas. Mas reviveu quando uma ex-funcionária arregaçou as mangas e assumiu a empresa. Desde então, o faturamento triplicou e as exportações para o mundo todo já representam metade da receita. (...)

O jeitão descontraído da peça, capaz de deixar um ar de varanda em qualquer ambiente, foi o que arrebatou a dupla Anna Backheuser e Elaine Fachetti. As duas acabam de escolher seis modelos de cores diferentes para rodear uma mesa numa casa no Horto.
— Quando esses clientes compraram a casa, queriam que a parte de cima não perdesse o aspecto despojado de terraço. Para fechá-lo, usamos vidro na cobertura para não cortar a paisagem e integrar a parte interna com o exterior, deixando esse clima de lugar aberto, mas com as vantagens de ser quase fechado. As cadeiras, que inclusive podem até ser usadas em lugares abertos, ajudaram muito a criar essa atmosfera.
As arquitetas Roberta Moura, Paula Faria e Luciana Mambrini também apostam no mix de cores para dar graça à mesa de jantar. Na casa de 400 metros quadrados de um jovem casal, no Humaitá, elas estão dispostas em volta de uma.
— O aço e a madeira fazem um maravilhoso contraste. Essas cadeiras se misturam com muita facilidade, são ótimas para quem gosta da ideia de botar cadeiras diferentes na mesa de jantar — indica Roberta.

  

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Tecnologia e desenho unidos pela diversão

Alex, o leão de Madagascar, é uma das criações favoritas de Cassidy Curtis Divulgação / Dreamworks

Avançadas técnicas de animação e efeitos visuais, desenvolvimento de softwares de computação gráfica, equipamentos de ponta e vários outros elementos tecnológicos da indústria cinematográfica americana fazem parte da rotina de Cassidy Curtis, que trabalha na Dreamworks, na California, como supervisor de animação. Em meio a tantos recursos de última geração, Curtis, formado em matemática, mas desde sempre ligado à arte, descobriu pouco a pouco que é desenhando no papel que ele consegue dar sentido aos personagens que anima. Essa percepção e a experiência acumulada no meio da animação serão assunto da palestra que ele fará na Semana Design Rio. Apaixonado por tipografia vernacular (aquela feita nas ruas, nos letreiros populares) e por grafite, Curtis, de 42 anos, mantém um blog para dar vazão a tantos interesses (otherthings.com/blog). O americano de Nova York, casado com uma animadora brasileira e pai de uma menina de 4 anos, vem regularmente ao Rio, cidade que diz ter amado no “momento em que pôs os pés no calçadão”.

Você se formou em matemática. Como sua carreira o levou para o universo da animação?
Minha formação universitária foi matemática, mas sempre estudei arte também. A maior parte da matemática que estudei, na verdade, envolvia desenhar imagens, então os dois nunca estiveram realmente separados para mim. O campo da computação gráfica, que era muito novo na época, foi uma forma de combinar as duas coisas que mais amava: a elegância da matemática e a satisfação visual de criar imagens. Depois que entrei para a indústria (de animação), no entanto, foi difícil resistir à atração que sentia pela animação de personagens. Então, trabalhei duro para desenvolver as habilidades para isso e, no devido tempo, consegui a chance de entrar na área, em que estou até hoje.

Você apresentará no Rio a palestra “O animador enquanto designer”, que já levou a festivais de animação em países como Grécia e Inglaterra. O que o público carioca pode esperar?
A pergunta mais frequente que ouço de quem quer se tornar animador é: “Eu preciso aprender a desenhar?”. Minha resposta não é nem sim nem não. É um pouco mais complicado do que isso, e espero que minha palestra ajude a tornar isso mais claro. Na época da animação no papel, tradicional, antes de ser um animador, você tinha que saber desenhar muito, muito bem. Mas a animação no computador mudou o sistema. Tem um artista que faz o desenho do personagem e outros artistas que fazem a animação, a performance do personagem. Foi nessa época que eu me formei. Eu podia animar no computador sem saber desenhar muito bem. Mas existem outras questões. Os personagens no computador se tornam cada vez mais flexíveis, e fica fácil fazer uma pose diferente, uma expressão ou uma cara que não são “certas” para esse personagem, que não se encaixam. Saber qual é a expressão certa é uma decisão artística, a pessoa tem que praticar, e a melhor forma de praticar é desenhar. Na gíria de animação, dizemos que o personagem está on model ou off model, quando ele está com uma expressão ou pose que combina com ele ou não. Estou desenhando cada vez mais. Quando encontro um personagem novo, passo um tempo desenhando no papel para poder entendê-lo antes de ir para o computador. É um jeito de colocar os pensamentos no papel para se comunicar com você mesmo.

Com que tipo de questão ligada ao design você lida no seu trabalho? Quais são suas principais funções na Dreamworks hoje?
Cuido especialmente do design dos personagens e da atratividade deles. É preciso ter muita atenção para que eles fiquem on model e atraentes, sem limitar suas possibilidades expressivas. Sobre minha função, não sou o supervisor de animação, sou um dos supervisores. Em geral, há cinco de nós num filme, sendo guiados por um diretor de animação. Cada supervisor cuida de um grupo de animadores e, juntos, tentamos dar o tom na aparência e no comportamento dos personagens, em coerência com a visão do diretor para a história. Cada animador ganha um grupo de cenas para animar. Numa semana típica, você pode animar três segundos do filme. Você pode trabalhar um ano inteiro e, no final, ter feito um ou dois minutos. Os filmes podem ter de 30 a 60 animadores, dependendo da complexidade. A produção em que estou trabalhando agora, “Mr. Peabody and Sherman”, sobre o cachorro mais inteligente do mundo, tem cinco ou seis supervisores de animação.

O personagem Toothless, de “Como treinar seu dragão”, ganhou o prêmio Outstanding Animated Character da Visual Effects Society. Como foi esse trabalho? É seu personagem mais especial?


Sim, eu estava lá quando ele nasceu. Trabalhei muito com ele. Amo esse personagem. O Toothless como vemos no filme foi inventado bem no fim do processo, menos de um ano antes de terminarmos. Tivemos pouco tempo para descobrir quem ele era. Isso foi feito no processo de trabalho das cenas, e cada um contribuiu de uma maneira, com diferentes ideias, até formarmos o personagem. Minha contribuição principal foi definir a forma como ele come. Também gosto muito do leão Alex, de “Madagascar”. Ele é de Nova York, e eu também. Pensamos do mesmo jeito. Ele faz gestos com as mãos. Eu faço gestos com as mãos (risos). No último filme, mudamos um pouco os tipos de pose e expressões dele, para que combinassem mais. A gente sempre aprende de um filme para o outro.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Artistas e grafiteiros de 16 países transformam apartamentos vazios de prédio abandonado em Paris

Fotos de Jacky Naegelen /Reuters

Era uma vez um prédio no 13o arrondissement de Paris, previsto para ser destruído no fim de 2013, e um dono de uma galeria de arte urbana na capital francesa. Em segredo, por vários meses, Mehdi Ben Cheikh convidou 105 artistas de rua e de arte urbana dos quatro cantos do mundo para deixarem suas marcas nos cômodos vazios do edifício, que fica à beira do Rio Sena. Inaugurada no início de outubro, a exposição "Tour Paris 13", autodenominada a maior exibição coletiva de street art já realizada no mundo, fica aberta até 31 de outubro - e até 10 de novembro de forma digital no site. São noves andares, 36 apartamentos de três ou quatro quartos num total de 4.500 metros quadrados que serviram de tela para artistas de 16 nacionalidades, incluindo os brasileiros Ethos, Loiola, 2mil, Flip, Herbert Baglione, Rapto, Speto e Tinho. Ao fim da exposição, o prédio será demolido, como estava previsto.

Banheiro pintado e grafitado pelo britânico David Walker
 
A arte do tunisiano Dabro em um dos quartos da torre
O artista de rua francês Tore fez sua arte em uma parede do prédio
Muitas cores e figuras femininas na arte do brasileiro Loiola

Veja mais fotos aqui

FONTE: Jornal O Globo

 

‘Precisamos de mais uma bela cadeira?’, questiona designer

Yin yang: o projeto para a British Airways, que uniu otimização do espaço e privacidade, foi o primeiro a incluir cama na classe executiva Divulgação
 
Designers são obcecados por objetos. E, nessa obsessão, não veem o impacto que suas criações podem ter sobre a experiência do consumidor e sobre o negócio do cliente. Essa é uma das visões que o inglês Martin Darbyshire, fundador da premiada consultoria de design Tangerine, compartilhou com o público da Semana Design Rio, em sua palestra no dia 24 de outubro. Para não deixar dúvidas do que pensa sobre o papel do designer hoje, Darbyshire dispara: “será que precisamos realmente de mais uma bela cadeira?”. Para ele, não está aí a essência da profissão, e há problemas mais amplos com que o designer pode lidar. A pergunta a fazer, segundo Darbyshire, é: como oferecer uma experiência melhor? Com uma equipe de cerca de 40 profissionais nos escritórios de Londres e Seul trabalhando para empresas de diversas áreas, há seis anos a Tangerine começou a fazer projetos para clientes no Sul do Brasil, como os da indústria de calçados. O designer de 52 anos, membro da Royal Society of Arts, vê o país como um mercado atraente, mas acha que as empresas brasileiras ainda estão começando a entender o que o design pode fazer por elas.

Qual será sua principal mensagem ao público no Rio? Quais projetos pretende apresentar aqui?
O ponto mais importante é esclarecer a diferença entre inovação e design, e como eles podem operar juntos. Os dois envolvem a capacidade de fazer as perguntas certas. Alcançar o sucesso a partir do design e da inovação pressupõe que se identifiquem as lacunas certas no mercado, que se crie consistência através de conexões com a marca e, ainda, que se pense na história certa. Isso acontece à medida que as experiências estão se tornando mais importantes para as pessoas que os objetos. Design não se trata de dar forma a objetos. Essa é uma visão muito estreita. Ele melhora a experiência do consumidor, muda seu valor e dá novas direções. Vou mostrar diferentes estudos de caso para explicar isso. Ainda estou escolhendo quais serão. Um deles será o projeto da cabine para a British Airways, porque, com ela, transformamos a experiência do passageiro. Ao projetar a experiência na primeira classe e na classe executiva da empresa, transformamos a oferta deles e o retorno do investimento. Vou falar do design como um caminho para melhores negócios.
Você participará da Semana Design Rio justamente no dia do tema design e inovação. Qual a diferença entre os dois afinal?
É muito simples. A única diferença é que a inovação ajuda uma empresa a saber o que deve fazer, qual o próximo passo no negócio. O design ajuda quando já se sabe onde está o problema e qual é a oportunidade que existe para a empresa. Claro que, quando falamos em inovação, as pessoas pensam em tecnologia, que naturalmente é importante. Mas eu penso mais a inovação como algo que ajuda a criar a coisa certa, a idealizar o próximo passo. Significa reunir as pessoas, de diferentes disciplinas, promover trocas e fazer esse processo ser compreensível e envolvente para todos.

A Tangerine foi fundada em 1989. O que mudou nesse tempo, considerando a compreensão das empresas e da socidade sobre o papel do design?
A vida se tornou muito mais fácil, em vários sentidos, desde que comecei a trabalhar. Em grande parte, isso se deve ao acesso mais fácil à informação, com a internet, e à existência de mais ferramentas sofisticadas de trabalho pelas quais se pode pagar. Mas muitos dos problemas fundamentais ainda existem. Citando Émile Chartier (filósofo francês), “prova-se tudo o que se quer, a verdadeira dificuldade está em saber o que se quer provar”. O maior problema para o design é a falta de entendimento sobre seu potencial e valor. As pessoas vivem para falar de design, mas poucos fazem dele uma competência central. Mas isso não surpreende enquanto a jornada em torno do design continua escondida, e os designers parecem obcecados com o objeto, em vez de com os benefícios que ele traz. Design para mim se trata de tornar as coisas melhores, pensando na experiência do usuário e no benefício estratégico para o negócio. O design pode e deve tocar em todas as dimensões de um negócio, do planejamento estratégico à implementação do menor dos detalhes.

Um dos projetos da Tangerine mais reconhecidos no mercado é a cabine para a classe executiva criada em 2000 para a British Airways, na qual, pela primeira vez, os passageiros puderam deitar completamente. O que determinou o sucesso dessa criação?
Antes de mais nada, o conceito desenvolvido no projeto é claramente melhor do que a experiência e os produtos existentes. Ele se baseia numa invenção que alcança a eficiência no uso do espaço. Normalmente, eram 48 passageiros nas cabines. Com o projeto, o número subiu para 56. Pesquisamos muito, especialmente o comportamento dos passageiros, até chegar a um formato inteligente, que permitisse a alta densidade na ocupação do espaço, aliada à privacidade dos indivíduos. Foi gerada uma patente com essa criação. Uma segunda versão do projeto foi criada em 2006, com um produto melhor, mas o mesmo princípio. Desde o lançamento do primeiro, o assento yin yang, como ficou conhecido, continua sendo o motor de lucros da British Airways.

Como você vê o mercado brasileiro para o designer?
Já trabalhamos muito no Sul do Brasil, com branding, design estratégico e design de produto. É um mercado fascinante, que exige uma parceria próxima com os clientes para se chegar a um bom resultado. Vejo um grande potencial, mas ainda estamos nos ambientando. Trabalhamos muito no Sul, porque lá está a maioria das indústrias. Mas acho que há outras oportunidades e formas de trabalharmos. As empresas do país ainda estão começando a entender o que o design pode fazer por elas.

Exposição só de madeira dos Zanine

Exposição de pai e filho é feita somente com peças de madeira Divulgação

Quando garoto, Zanini de Zanine, um dos principais nomes do design contemporâneo de hoje no Brasil, sentia o cheiro da madeira, o barulho das peças sendo cortadas e era seduzido pela textura das peças fabricadas por seu pai, José Zanine Caldas, o mestre da madeira, que faleceu em 2001. Hoje, ele retribui esta memória com criações próprias de poltronas e bancos de madeira na exposição “Legado Zanine: o uso da madeira por José Zanine Caldas e Zanini de Zanine", que vai até o dia 26, na Romanzza Design, no Recreio dos Bandeirantes.
- Gosto muito de trabalhar com a madeira, porque tenho essa relação de afeto desde cedo, vendo o meu pai trabalhando, sentindo o cheiro, a textura e uma série de elementos que ficaram registrados — recorda Zanini.
 Uma diferença entre os dois acervos
Para o artista, não se trata das impressões artísticas de décadas distintas, mas, sim, de duas visões sobre uma mesma paixão: a madeira. Enquanto nas obras de Caldas prevalecia o acabamento mais rústico e as linhas orgânicas, Zanini foca seu trabalho nas linhas geométricas e faz uso de fragmentos de madeira de demolição como vigas e colunas de casas antigas.
Outra diferença das duas gerações: o pai fazia maior uso de peças inteiras.
— Usar pedaços inteiros hoje em dia não é tão viável, até mesmo pela escassez das peças — conta Zanini, que optou por vigas de peças de madeira de demolição da maçaranduba e ipê para criar os bancos “Joá”, presentes na exposição no Recreio dos Bandeirantes.
— A madeira é muito presente no Brasil, desde a arquitetura colonial, então, não é tendência, é atemporal. A ideia da exposição é mostrar um pouco desse legado do meu pai e peças minhas com esta matéria-prima.
As obras apresentadas que foram criadas por Caldas e estarão expostas incluem a poltrona “Revisteiro”, fabricada na década de 70; um banco redondo dos anos 80; um aparador com estrutura de madeira rústica e tampa de vidro; e duas maquetes: de torre e casas.
Cada qual na sua arte, mas com a mesma intenção: a de mostrar o potencial e beleza da madeira, que, segundo Zanini, o impressiona pela força, coloração e sensação de acolhimento. Predicados que o levaram a criar, em 2012, a poltrona “Anil”, com cortes na madeira que simulam almofadas e trazem a ideia do aconchego.
— A proposta dessa poltrona é brincar com a sensação de acolhimento da madeira, não só pela cor, mas também pelo contato visual. Eu simulei algumas almofadas que dão essa ideia — conta Zanini, sobre a peça de 130 quilos de uma edição limitada.
A poltrona, inclusive, esteve entre as criações expostas, este mês, em Nova York, no ateliê Espasso, onde outros trabalhos do acervo de Zanini foram apresentados ao público americano.
Para Rafael Tanico, proprietário da Romanzza Design, com o irmão Rogerio Tanico, receber a exposição é um privilégio, especialmente porque a loja tem um público voltado ao design, que poderá conhecer melhor o trabalho dos artistas. A mostra fica na Avenida das Américas 15.760. A entrada é gratuita.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Um passeio pelo art nouveau e art déco carioca

O Cine Íris: azulejos pintados a mão Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
Há quem passe pela calçada em frente ao Cine Íris, no Centro do Rio, e evite olhar para dentro, com medo de ver alguma cena mais picante no interior do estabelecimento, que oferece sessões de filmes pornôs e shows de striptease. Mas há quem pense que essa gente não sabe o que está perdendo. Apesar de pouco conservado, o edifício centenário da Rua da Carioca, que no passado abrigou o Cinematógrafo Soberano, é um dos últimos exemplos de arquitetura art nouveau ainda de pé na cidade. E preserva alguns dos azulejos pintados à mão, balcões e grades de ferro da época em que foi construído, no início do século XX. Juntamente com a Casa Villino Silveira e o Edifício Ipu, ambos na Glória, o Palácio do Comércio, no Centro, e as portarias e varandas de algumas construções no Flamengo, o cinema, tombado pelo Estado, é um dos endereços na cidade onde os estilos art nouveau e art déco ainda resistem.
— Mesmo não tendo o estilo marcante arquitetural do art nouveau, ele tem detalhes que são uma assinatura da época, como a cerâmica. E a parte de marcenaria e decoração é assinada por Antonio Borsoi, que concebeu e executou a Confeitaria Colombo e a extinta loja para homens da Rua do Ouvidor, A Torre Eiffel. O cinema é belíssimo. Lamento que alguns azulejos tenham sido retirados e que a bilheteria também não esteja mais lá — comentou o designer Márcio Roiter, presidente do Instituto Art Déco Brasil e curador da exposição “Art nouveau & art déco: estilos de sedução”, em cartaz até novembro, no Espaço Cultural Península, na Barra.

Outro raro exemplo de construção art nouveau que restou na cidade é a casa situada ao lado da extinta TV Manchete. Erguido em 1915 pelo arquiteto italiano Antonio Virzi, o casarão de três andares, que hoje é propriedade do empresário Eike Batista, impressiona em cada detalhe: as colunas, assimétricas, são decoradas com laçarotes e detalhes rebuscados em estuque; as portas e as grades das janelas têm um delicado trabalho em ferro. No portão da frente, o visitante é “recebido” por uma maçaneta dourada, em forma de serpente.
— Feita para Gervásio Renault da Silveira, fabricante do Elixir de Nogueira, é uma casa com volutas assimétricas, mas ao mesmo tempo bem comportadas. Um casamento entre a arte escultórica aplicada e serralheria de extremo bom gosto. Trata-se do exemplar art nouveau com prenúncio de art déco mais importante da cidade — opina Roiter, que é curador brasileiro de “1925, quand l’art déco séduit le monde”, em cartaz no Palais de Chaillot, em Paris, a partir do dia 16.

Segundo Roiter, em toda a cidade, há cerca de mil prédios art déco. Um dos mais famosos é o Palácio do Comércio, edifício da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), na Rua da Candelária. Projetado pelos arquitetos Henri Sajous e Auguste Rendu, o edifício costuma receber muitos turistas e estudantes de arquitetura, interessados em fotografar as monumentais portas de entrada em serralheria ou em registrar o mural, em alto-relevo, de Albert Freyhoffer, localizado no hall. O mais belo painel, no entanto, está escondido. Com 2,98 metros de largura por 3,47 de altura, ele tem uma escultura do deus Mercúrio ladeado por duas musas e fica no terraço, que está interditado ao público.

Inspiração no desenho industrial
Enquanto o prédio do Palácio do Comércio, no Centro, representa, o art déco luxo (com uso de materiais nobres, painéis com esculturas e portas com serralheria artística), o Edifício Ipu, projeto de 1935, de Ari Leon Rey, para o Hotel Pax, é uma mostra da simplicidade do art déco streamline.
— São edifícios aerodinâmicos, que prescindem de luxo. Obedecem à nova estética da modernidade, da arquitetura casada com o desenho industrial. Nessa vertente, temos construções que lembram formato de torradeiras e aspiradores de pó. Tipica arquitetura que casa com o desenho industrial — ensina o presidente do Instituto Art Déco Brasil.
No caso do Ipu, não há dúvidas de que os navios transatlânticos foram a inspiração: as varandas têm formato de deque e as janelas, desenho semelhante ao de escotilhas. Visto de longe, ele parece um navio aportado em plena Rua do Russel.
— Nele, tudo evidencia a influência dos navios, que eram os grandes monumentos do estilo art déco — diz Roiter.
Projetado para ser hotel, na década de 50 o Ipu foi adaptado para fins residenciais. Os antigos quartos viraram apartamentos. Com isso, muitos proprietários fizeram obras que descaraterizaram o imóvel, fechando as varandas com vidros ou colocando aparelhos de ar-condicionado na fachada. Curiosamente, até alguns anos atrás, contam moradores, ainda era possível ver na portaria a antiga mesa de telefone da recepção do hotel.
No Edifício São João, na Rua Senador Euzébio, no Flamengo, moradores e visitantes convivem com um hall decorado como um palacete: com mármores italianos (amarelos dourados e vermelhos) e com ônix, formando mosaicos e desenhos geométricos. Os elevadores de madeira, que infelizmente perderam os ponteiros que marcavam os andares, continuam lá. Assim como a iluminação embutida que, na época da instalação, era considerada de vanguarda.
— Neste hall, do início de 1930, a ideia da modernidade está presente em todos os sentidos. No teto, a entrada da iluminação é garantida por tijolos de vidro e há vigas com iluminação embutida, recurso que era uma novidade naquela época — ressalta Márcio Roiter, que destaca, ainda, a portaria do Edifício Petrônio, em Copacabana, como um endereço imperdível em qualquer roteiro art déco no Rio.

FONTE:  Jornal O Globo

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

‘O design social cria soluções para a pobreza’, afirma curadora de museu em Nova York

Cynthia Smith palestra na Semana Design Rio Terceiro / Agência O Globo

Designer de formação, e ativista de direitos humanos e justiça social de longa data, a americana Cynthia Smith encontrou em um museu de Nova York o lugar ideal para conjugar sua dupla atuação. No Smithsonian Cooper-Hewitt, National Design Museum, único nos Estados Unidos dedicado ao design contemporâneo e à história da atividade, Cynthia se tornou curadora de design socialmente responsável em 2009, dois anos depois de ter realizado lá a exposição “Design para os outros 90%”, uma referência à parcela da população que não costuma ser atendida por esse tipo de projeto. Antes de chegar ao Cooper-Hewitt, ela passou mais de dez anos fazendo projetos de design e planejamento multidisciplinar para instituições culturais. Em seu engajamento político, chegou a disputar uma eleição para líder distrital. Decidida a integrar seus interesses, a designer voltou a estudar e se formou na Harvard University’s Kennedy School of Government. Hoje, Cynthia é uma referência para quem busca uma visão e uma atuação engajadas no universo do design.

Qual será sua principal mensagem ao público carioca?
Pretendo mostrar que o design pode ter um papel importante no enfrentamento das questões mundiais mais críticas e complexas. Historicamente, designers com formação profissional focaram apenas em uma pequena parcela da população mundial, mas isso está mudando neste novo milênio, na medida em que designers, arquitetos, engenheiros, administradores, responsáveis por políticas públicas e ONGs estão trabalhando diretamente com pessoas com recursos limitados. E colaborando com outros setores para desenvolver soluções de baixo custo que atendam às necessidades de comunidades carentes no mundo todo.

Como você definiria o design socialmente responsável? Quais os maiores desafios nessa área hoje?
Ele é o termo que define o design que é sustentável social, ambiental e economicamente — os três pilares importantes da qualidade de vida tratados pela comunidade internacional. Essa área do design chama a atenção para uma variada gama de preocupações, incluindo políticas econômicas sustentáveis e responsáveis. Em vez de explorar economias mais fracas, o design social cria soluções para a pobreza, minimiza o impacto ambiental, melhora a qualidade da assistência de saúde e da educação em todos os níveis, aumenta a inclusão social e apoia a diversidade cultural. Pela primeira vez na história, a maior parte de nós está vivendo em cidades. Uma em cada sete pessoas — quase um bilhão de pessoas — vive em assentamentos informais ou ocupações. A expectativa é que esse número dobre em 20 anos, no contexto de um mundo com grandes desafios climáticos. Essa maciça migração urbana para pouco saudáveis e densos assentamentos informais é o principal desafio deste século. É imperativo que nos comprometamos com um desenvolvimento urbano focado nos mais pobres, dando suporte para que inovem e ampliem a criação de soluções próprias e adequadas à sua cultura. Precisamos fomentar as capacidades em nível local, estabelecendo centros de inovação comunitários, nos quais as pessoas sejam orientadas e tenham acesso a materiais.

Em 2007, você foi curadora da emblemática exposição “Design para os outros 90%”, que mostrou projetos de produtos para ajudar pessoas a enfrentarem a pobreza ou superarem um desastre natural. Como surgiu a exposição?
Ela foi inspirada no trabalho que Paul Polak estava fazendo na Índia e em Bangladesh, criando ferramentas para microirrigação para agricultores pobres. O então diretor de curadoria do Cooper-Hewitt conheceu Paul e levou a ideia para o museu. Um dos projetos apresentados na exposição aproveita os escombros do furacão Katrina para produzir móveis em Nova Orleans. Mostramos também a bomba de baixo custo movida a pedal (do designer norueguês Gunnar Barnes), que permite que mesmo os mais pobres agricultores acessem a água no subsolo para usar na época da seca e aumentar a produção.

Para a segunda mostra da série, “Design para os outros 90%: Cidades”, você visitou diversas comunidades no Hemisfério Sul. Esteve no Rio ou outra cidade brasileira?
Participei do Fórum Urbano Mundial no Rio, em março de 2010. Nessa visita, conheci muitas organizações e pude entrar em várias favelas em diferentes estágios de pacificação. Seria interessante poder saber se essa iniciativa é vista como positiva ou não pelos moradores dessas comunidades. Depois, fui a Diadema e São Paulo. A reurbanização de Diadema foi um dos importantes exemplos do Brasil que incluí na exposição. No início dos anos 80, 30% dos moradores de Diadema viviam em favelas. Em 2010, esse número caiu para 3% (o projeto de pintura de casas no Morro Santa Marta, em Botafogo, também entrou na mostra).

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Um olhar além do desenho exuberante do Rio

Ricardo Leite elaborou a marca do evento, que acontece de 23 a 27 de outubro Gustavo Miranda

Está na cara que design é a vida de Ricardo Leite. Tirando e botando os óculos que lembram um fone de ouvido, ele discorre sobre a palavra que dará o tom da cidade na Semana Design Rio, promovida pelo GLOBO.

Qual a importância de uma semana de design para o Rio, bonito por natureza e em foco no mundo por ter sido escolhido para sediar grandes eventos internacionais?
Primeiro, temos que entender que existe um movimento mundial de valorização do design. Qualquer grande capital tem hoje sua semana de design. Porque o que era uma coisa de um nicho de pessoas tornou-se um tema transversal, presente em vários setores da economia. O Rio, a mais internacional das cidades brasileiras, é um ponto de convergência. Entre as montanhas e o mar, Zona Sul e Zona Norte, favela e asfalto, samba e bossa nova. Sempre fomos a capital criativa do Brasil. Não por acaso seremos palco principal dos dois maiores eventos esportivos do mundo. O design ainda é bastante mal compreendido, e a Semana Design Rio tem importância central na democratização e conscientização da sociedade sobre como o design está presente na qualidade do seu dia a dia. Ou seja, sobre a importância estratégica do design para as suas vidas. Outro ponto poderoso é a capacidade de atração de negócios para o Rio. Para se ter um parâmetro, a Semana de Design de Milão atraiu 300 mil pessoas de 160 países, com enorme impacto na agenda turística daquela capital. O Rio, por já ser um destino turístico e referência brasileira internacional, tem enorme potencial nesse sentido.

Muitas pessoas só enxergam design nos objetos. Como mostrar-lhes onde mais ele está?
Mais do que como as coisas se parecem, design está relacionado à experiência de uso destas coisas. Se estou no shopping e quero ir ao banheiro, por exemplo, procuro aqueles dois bonequinhos que indicam o masculino e o feminino. Eles são como se fossem letras. Quando colocamos uma seta na placa, formamos a frase. O designer ensina a sociedade a ler de uma forma mais criativa. E olhar pela ótica de quem vai usar aquilo é o grande pulo do gato. Quando fizemos o projeto de sinalização do Metrô, vimos que os executivos estavam preocupados com aspectos como segurança — o que é importante, afinal um trem não pode bater no outro. Mas não pensavam com a cabeça do usuário. Então, convocamos as pessoas de todas as áreas da empresa para andar conosco de metrô. E foi uma experiência incrível. Era preciso classificar quem usa esse meio de transporte. Tem quem viaja diariamente para trabalhar, e já conhece como tudo funciona; tem o turista, que chega aqui e fica perdido. É preciso ter o olhar do turista para entender. O turista não sabe, nem tem obrigação de saber, onde ficam a Zona Norte e a Zona Sul. Então, você tem que dizer o destino final, o nome da estação, e não para que zona ele está indo.

Com a velocidade das transformações do mundo atual, como fazer com que uma marca ou produto fique no imaginário carioca?
Vivemos uma era de profundas mudanças. As pessoas esperam avidamente por novidades e clamam por criatividade. E acontece um processo de fossilização de marcas e produtos. Lidamos com objetos que não quebram, mas ficam obsoletos, como celulares. Foram-se o sorvete do Moraes, o Pasquim, o Planeta Diário, os discos e até os CDs... As marcas e produtos precisam se reinventar, ou vão morrer. E quando você pensa nisto, vê que a ferramenta que alavanca esse processo é o design. As cidades também estão tendo esta exigência por uma agenda criativa. Boa parte do que a gente vê hoje nas ruas, as manifestações, acontece porque os modelos políticos estão obsoletos. Empresas e governos precisam mudar o foco, através do que chamamos de design thinking, estratégia inventada nos anos 90 que possibilita o encaixe neste modelo de inovação que o mercado exige.

Como foi o processo de criação da marca e da campanha da Semana Design Rio, assunto de sua palestra, no sábado?
Partimos do conceito de que o Rio é uma cidade onde o design está por todos os lados: a natureza já é de um design exuberante (a geografia da orla, as montanhas, uma grande lagoa). Daí veio “todos os caminhos do Rio levam ao design”. E fizemos uma simbiose gráfica das palavras Rio e design. Foi quando surgiu a ideia das conexões, que são indicações para o olhar. Depois, vestimos a marca com cores. Usamos uma paleta a partir de elementos que estão em nosso entorno, com o verde e o azul.

Escola de música da UFRJ será reformada

Desenho mostra como ficará a Escola de Música da UFRJ Divulgação

 Villa-Lobos e Pixinguinha se encontrarão na Lapa, no vaivém de músicos que serão retratados no gradil que cercará o complexo da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Avenida República do Paraguai, após o restauro dos dois prédios centenários do complexo, que ganhará mais um edifício. A ampliação do conjunto arquitetônico, noticiada por Ancelmo Gois, em sua coluna no GLOBO, vai comemorar os 165 anos da escola. O restauro custará R$ 15 milhões e será concluído em dois anos. O novo prédio começará a ser construído depois e deve ficar pronto em 2019. Ele terá oito andares de salas de aula para melhorar a vida dos cerca de mil alunos que se espremem hoje nos dois outros prédios, com apenas um banheiro disponível, entre salas de concerto e área administrativa (sem janelas), numa mistura de sons comum em ambientes sem tratamento acústico.
— A ideia de ilustrar o gradil com pessoas passando surgiu porque, como vamos abrir uma entrada do prédio anexo para a República do Paraguai, e o novo também será voltado para lá, pensamos em movimentar aquela calçada, hoje em dia muito erma. Pensando nisso, chamei a designer Bitiz Afflalo para desenvolver o mobiliário e o ilustrador Rafael Fonseca para fazer os desenhos, em chapa galvanizada - conta a arquiteta Andrea Borde, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, que coordena o projeto, e acabou optando por retratar ex-alunos da instituição e personagens que, de alguma forma, têm relação com a escola, como Carmen Miranda, que ali fez sua primeira apresentação no Rio de Janeiro. — O gradil servirá para proteger o mural pintado na empena cega do prédio principal da escola, que será restaurado. Não queremos ficar enxugando gelo.
Com 25m de altura e 960m² de comprimento, o painel - chamado "Paisagem Urbana" — foi idealizado e pintado pelo artista plástico Ivan de Freitas em 1984. O último restauro foi há cinco anos e, logo depois, a obra foi pichada. A nova restauração ainda não tem data definida, mas o gradil deve ser instalado no final do ano que vem. Ele se estenderá da esquina da Rua do Passeio até a Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj (Esdi). As obras no prédio principal do complexo, o do painel, já estão em andamento — com a recuperação de salas de concerto como a Leopoldo Miguez, de acústica exemplar -, com base em um projeto de 2005, que ganhou adaptações feitas por Andrea.
— Estamos redefinindo os espaços do conjunto arquitetônico. Esse edifício principal ficará reservado para concertos. Para isto, algumas salas de aulas do térreo serão transformadas em camarins reversíveis para salas de aula, caso seja necessário, e as janelas ganharão tratamento acústico. Já o segundo prédio ficará reservado para aulas e para a administração da escola., embora também vá ganhar uma sala para concertos de câmara. E o terceiro, a ser construído, terá oito andares para salas de aula e uma cafeteria aberta no térreo — explica a arquiteta. — Vou fazer uma fachada dupla, com um vão de 65 centímetros, para amenizar o calor do sol da tarde. O vento correndo ali vai diminuir a temperatura. E, à noite, será possível ver os alunos em aula.
O conjunto arquitetônico ganhará também um terraço aberto à visitação, com vista para a Lapa e a Baía de Guanabara, além de uma passarela que ligará todas as unidades. A novidade é uma das modificações feitas para permitir melhor acessibilidade. Um elevador será construído no lugar onde fica hoje uma cantina, improvisada entre os dois prédios já existentes.
— Hoje, se um aluno está no terceiro andar do prédio anexo e vai tocar no salão Leopoldo Miguez, ele tem que descer carregando o peso do instrumento, sair de um prédio e entrar no outro, sujeito à chuva, por exemplo — diz Andrea.
O maestro André Cardoso, atual diretor da escola, só vê vantagens na reforma, que beneficiará alunos da iniciação musical à pós-graduação:
— A reforma vai caracterizar cada prédio. Vamos ganhar banheiros e camarins.
A Escola de Música da UFRJ é o endereço da história do ensino musical carioca e nacional. Surgiu quando a Sociedade de Música, em 1841, pediu autorização para criar um Conservatório de Música a fim de formar novos artistas para orquestras e coros. Chamado depois de Instituto Nacional de Música, a atual Escola de Música é subordinada à universidade desde 1965. O imóvel só foi inaugurado em 1922. Por lá passaram nomes como Antônio Carlos Gomes (autor de II Guarany), Francisco Braga (autor do Hino à Bandeira), Pixinguinha, Villa-Lobos e Wagner Tiso.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Arquitetura que envelhece bem como um vinho

A sede do Atelier Arcau, na França, batizada de Steelband, tem cor de ferrugem devido ao uso de um aço misturado ao cobre
A base de Julien Veyron e do Atelier Arcau é a cidade de Vannes, uma pequena cidade costeira da Bretanha, na França, onde ele, aliás, nasceu. Mas o olhar do arquiteto de 37 anos, casado com uma paisagista brasileira, está acostumado a buscar, em cada novo projeto, referências no local onde deixará sua marca. Para Veyron, trata-se de criar uma história que possa ser apropriada pelos moradores do lugar, integrando cultura e costumes. Assim tem sido seu trabalho ao lado do sócio, Xavier Fraud, com quem integra uma equipe de 22 profissionais. Defensor de uma arquitetura pensada para durar e melhorar com o tempo — como um bom vinho, Veyron lembra —, ele critica o pensamento que julga ser dominante: “A lógica de hoje é fazer algo prático, bonito para o marketing e o dia da inauguração. Saber se o uso da construção é gostoso e como será sua existência futura não entra em questão. A ideia de sustentabilidade na arquitetura tem a ver com evitar construir e depois demolir para construir outra coisa. Algo bem planejado pode ter novo uso”.

Com essa preocupação, o Atelier Arcau cria desde prédios públicos e residências a projetos de reurbanização de áreas degradadas. Numa passagem recente por Cingapura para ser jurado de um concurso, Veyron se incomodou com a sensação de que as novas construções da cidade — que se multiplicam rapidamente — poderiam estar em qualquer lugar do mundo. Sabendo que o Rio vive também um período de grande transformação urbana, com projetos como o de revitalização do Porto, o francês se anima com a chance de participar do debate sobre os rumos da cidade.

Qual mensagem você pretende passar ao público com os projetos escolhidos para mostrar na palestra?
Eu gostaria simplesmente de compartilhar nossa visão do urbanismo. Uma visão humilde e generosa, baseada na ideia de que nossas paisagens urbanas resultam da sobreposição progressiva dos desejos dos homens. Estou convencido de que as coisas mais lindas e os lugares mais carregados de emoção, muito raramente, são lugares com uma coleção de materiais caros, super vitrificados, e com cores flashy. Esses lugares mágicos de que gostamos têm alguma coisa que não tem nada ver com isso. Eles tem uma alma. Uma alma única. O que eu gostaria de mostrar é que o design, a arquitetura e o urbanismo traduzem uma atitude que tem consequências na cidade, no bairro, nos vizinhos. Essa Semana de Design para mim vai ser uma oportunidade única para entender a visão urbana que cada carioca tem da própria cidade. Estou bem animado, porque essa primeira edição coincide com um período de mudanças históricas no Rio.

Um dos projetos apresentados será o do prédio batizado como Salorge, criado para a prefeitura de Pornic, na França, e premiado no World Architecture Festival 2012. Ele é descrito como um projeto de escritórios bioclimáticos. O que é esse conceito?
Trata-se de um edifício bioclimático porque ele é pensado, antes de tudo, para o bem-estar dos usuários, do jeito mais natural possível. Os políticos tinham uma vontade clara de construir um edifício sustentável. Criamos um prédio ergonômico, funcional, claro, acusticamente excelente, e com temperatura naturalmente agradável ao longo do ano. Com o revestimento de lâminas de madeira (exclusivamente de reflorestamento), por exemplo, é desnecessário usar ar condicionado no verão. Ao mesmo tempo, no inverno, como o prédio é bem isolado, você precisa de pouca energia. O sistema de calefação não usa gás, mas madeira de florestas controladas. E como essa madeira vem de bem perto, o ciclo é curto e você reduz o impacto com transporte. Em relação às referências do lugar, a inspiração foram antigos armazéns de sal.
O Atelier Arcau é conhecido por fazer um uso inovador dos materiais. Que projeto exemplifica isso?
Acho que o prédio do nosso próprio escritório, o Steelband (dividido com outras três empresas). Não é que ele use um material novo. É feito de um aço que parece ferrugem, porque leva uma mistura de cobre. Com o tempo, ele se aproxima mais do cobre até estabilizar. É um material rústico, pouco usado na arquitetura. Representa bem uma coisa que a gente gosta, um material perene, não necessariamente bonito no dia da inauguração, como um bom vinho que fica melhor com o tempo. A gente tenta pensar assim no espaço público. Também quisemos colocar nosso escritório fora do Centro de Vannes, valorizando a periferia.

Quando você decidiu se tornar arquiteto?
Foi uma decisão que chegou tarde. Eu tinha 18 anos quando li um livro do Le Corbusier na biblioteca municipal da minha cidade, “Vers une architecture”, eu acho. Fiquei fascinado e ao mesmo tempo intrigado com os textos cheios de certezas. Por exemplo, lembro bem dessa frase absurda sobre o urbanismo: “A rua curva é o caminho dos burros, a rua reta, o caminho dos homens”. A partir daí, comecei a me apaixonar progressivamente pelo urbanismo, a arquitetura, o paisagismo e o design.

Sua vivência no Brasil, incluindo o período na PUC-Campinas, influenciou seu trabalho de alguma forma ?
Sem dúvida. Influenciou e continua influenciando, já que volto ao Brasil todo ano. É difícil analisar com muita precisão, pois tem o consciente e o inconsciente. Aprendi com as cidades brasileiras, com o trabalho de arquitetos como Lucio Costa, Vilanova Artigas e Lina Bo Bardi, e de outros personagens, humildes e muito talentosos, como o Roberto Burle Marx. De um modo geral, a cultura brasileira me encanta. Os brasileiros têm um jeito bem singular de olhar a vida, que não tem igual na Europa.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Em embalagens, cartazes, telas...

 É praticamente impossível que alguém jamais tenha topado com algum trabalho de Saul Bass (1920-1996). O designer gráfico nascido em Nova York criou muitos dos logotipos mais famosos do mundo. Entre eles estão os de Quaker, AT&T, Minolta, Warner Communicatin, Kleenex, United Airlines, Alcoa e Avey Dennison. 

Bass também de destacou no cinema, prestando serviços para diretores do quilate de Alfred Hitchcock, Otto Preminger, Billy Wilder, Stanley Kubrick e Martin Scorsese. Desenvolveu, entre diversas outras, sequências de abertura para A volta ao mundo em 80 dias (1956), Spartacus (1960), Psicose (1960), Amor Sublime Amor (1961), Deu a Louca no Mundo (1963) e Os Bons Companheiros (1990). São obras suas, também, os cartazes clássicos de O Homem do Braço de Ouro (1955), Um Corpo que Cai (1958) e Anatomia de um Crime (1959).


Cartaz de Bunny Lake is Missing, 1965
Dirigido por Otto Preminger
Cartaz de One, Two, Three, 1961
Dirigido por Billy Wilder


Cartaz de Vertigo, 1958
Dirigido por Alfred Hitchcock


Conheça mais sobre Saul Bass, clicando aqui


FONTE: Revista Embalagem Marca, n°169.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mostra ‘Rio + Design’ será uma das principais atrações da Semana Design Rio

A Rio + Design Milão 2013, ocorrida em abril, levou peças de 27 designers do estado para a Itália
 
Mesas que se encaixam como lego, bancos que lembram as cadeiras de praia dos anos 70, colares com materiais sustentáveis, poltronas feitas de chapas de compensado, com jeitão de escultura, ou uma bicicleta para crianças sem pedais ou rodinhas de apoio. Num passeio pelos 240 metros quadrados da quinta edição da “Rio + Design”, uma das principais atrações da Semana Design Rio, que acontecerá de 23 a 27 de outubro no Jockey Club, o visitante poderá conhecer estas e outras dezenas de ideias que andaram fervilhando pela cabeça dos mais criativos profissionais de design do estado. E viraram belos produtos. Ao todo, serão 116 peças, selecionadas pelo Conselho Consultivo de Design, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços do Estado do Rio, que ficarão expostos durante os cinco dias de evento na Gávea.
Promovida pelo governo do estado, em parceria com a Firjan, o Sebrae e a Reluz, este ano a nova edição da “Rio + Design” bate recorde de participantes: serão mais de 50 designers, um time que reúne nomes como Antonio Bernardo, Eduardo Baroni, Bernardo Senna, Freddy Van Camp, Gilson Martins, Índio da Costa, EM2 Design, Lattoog Design, Studio Zanini e Sergio Rodrigues.
Além disso, a organização da “Rio + Design” decidiu incluir a mostra na programação da Semana Design Rio, que tem patrocínio de Even, Air France, Senai Cetiqt, Shopping Leblon e Casa Shopping, bem como apoio do governo do estado, do Senac, da Firjan e da Tok Stok, e parceria acadêmica com a ESPM.
— Acreditamos que, ao integrar a Semana Design Rio, teremos um upgrade no fechamento de negócios e na divulgação dos produtos, já que, dentro de um evento como esse, daremos ainda mais visibilidade à produção dos designers e da indústria criativa fluminense — aposta Dulce Ângela Procópio de Carvalho, subsecretária de Estado de Comércio e Serviços.
A mostra — que tem duas edições anuais, uma no primeiro semestre, em Milão, e outra no segundo semestre, no Rio — a cada ano vem atraindo mais designers e, com isso, cumprindo o papel de ajudar a desmistificar o tema.
— Na primeira edição, em 2008, eram apenas 17 designers. Este ano, em Milão, foram 27. E na edição deste segundo semestre, aqui no Rio, já temos mais de 50. Isso mostra um crescimento do projeto e prova que estamos nos aproximando de nosso objetivo, que é trazer o design para o cotidiano das pessoas. Queremos que as pessoas se acostumem a ver o design no seu dia a dia — explica a subsecretária.
Um dos produtos que poderá ser visto pelo público será a Bike Zimba, uma bicicleta de treinamento nos moldes das usadas pelas crianças da Europa: sem pedais e sem rodinhas de apoio. Feita de madeira, com cores vibrantes, ela é mais leve que as de alumínio e foi criada pela equipe do Estúdio Baobá.
— Essa bicicleta é feita para a criança começar desde cedo a treinar o equilíbrio. Ao contrário das que estamos acostumados a ver aqui no Brasil, ela é muito usada em países da Europa para crianças bem pequenas, por volta do dois anos, começarem a aprender. Elas sobem e dão impulso, sem ajuda de rodinhas — ensina a design Gabriella Vaccari, que já testou o produto em seu filho.

Tecnologia convive com peças lúdicas
Se com a bike o público vai lembrar dos tempos de infância, com o projeto do Estúdio Alcantarino muita gente vai continuar recordando do passado. Segundo o designer Carlos Alcantarino, a inspiração para criar o banco e a poltrona Copacabana foram as antigas cadeiras de praia de madeira, com assento em nylon colorido, muito usadas nas praias cariocas nos anos 70.
— Pensamos naquelas cadeiras que as pessoas usavam para ir à praia, e que muitos hotéis ofereciam. Só que fizemos peças com fios de nylon, em vez do polipropileno usado no passado. Colocamos muita cor e grafismos e ficou uma peça colorida, que pode ser usada numa varanda ou num living, num cantinho de decoração mais leve — explica Carlos Alcantarino.
Outro exemplo de móvel que será exibido na “Rio+Design” é a cadeira mamulengo, criação do designer Eduardo Baroni para a empresa Elon, de Petrópolis. Produzida com chapas de compensado e acabamento em laca, a cadeira de balanço parece uma escultura.
— Este ano, optamos por uma abordagem mais ampla e teremos muitos produtos que usam tecnologia, além de peças lúdicas — explica Dulce, esclarecendo que, diferentemente da edição do ano passado, quando o foco dos trabalhos era a sustentabilidade, dessa vez as peças e produções não se restringiram a um tema.
Representando a simbiose do design com a tecnologia, há a máquina da Habto Design. Especializada em desenvolver design de produtos inovadores para a educação, a empresa carioca vai mostrar sua mais recente criação: a Superfície Educacional Interativa, ou SEI. De acordo com o designer Eduardo Cronemberger, o equipamento foi projetado para ser usado em salas de aprendizagem e bibliotecas de escolas. Trata-se de uma tela multitoque 3D, de 55 polegadas, com ajustes elétricos de altura e inclinação. A grande vantagem, explica Cronemberger, é que ela pode ser usada como TV, para exibição de filmes; como lousa digital, para apresentações; ou como monitor, para pesquisas e trabalhos individuais ou em grupo. E mais de um aluno pode trabalhar nela ao mesmo tempo.
— Ela tem uma tela interativa que aceita até dez toques simultâneos, o que permite que várias pessoas a utilizem simultaneamente — explica Cronemberger, acrescentando que a SEI foi criada em parceria com o Centro de Automação e Simulação do Senai-RJ e que a instituição tem quatro equipamentos em uso.

Evento apresentará joias de designers novos e consagrados
Uma amostra do que tem inspirado os designers de joias do Rio foi selecionada pelos curadores da “Rio + Design”. São mais de 30 brincos, pulseiras, colares, relógios, alianças e anéis de ouro, em prata, pedras e materiais alternativos como borracha e couro. Além de peças do consagrado Antonio Bernardo, que levará oito de suas mais recentes criações, a exposição inclui a produção de jovens joalheiras como Vanessa Robert, que mostrará um anel e um brinco da coleção Fios, que remete à arquitetura contemporânea, e Lívia Canuto, que vai expor três anéis da coleção Arábia.
— Além da divulgação que o evento possibilita, é uma oportunidade de troca de ideias entre os profissionais da área e verificar a produção atual dos designers participantes — diz Lívia.
A Semana Design Rio, promovida pelo GLOBO, promete virar mais uma atração no calendário de eventos da cidade. Durante cinco dias — de 23 a 27 de outubro — o Jockey Club abrigará debates e palestras com arquitetos e designers brasileiros e estrangeiros, workshops e estudos de caso. Fora do Jockey, haverá visitas guiadas e uma programação que inclui eventos em shoppings, lojas e ateliês. 

Inscrições a partir do próximo dia 10, no site semanadesignrio.com.br.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Atuação social: Criação inspirada na realidade local

Design Aberto: No Alemão, busca de solução para lixeira Agência O Globo / Agência O Globo
 
“Compartilhe um problema e ajude a gerar soluções”, convoca o cartaz da designer carioca Samara Tanaka no Complexo do Alemão. Há cinco meses, todo sábado, ela visita o conjunto de favelas para envolver os moradores no projeto Design Aberto, que estimula a criação de soluções pela própria comunidade para as necessidades locais. Num dos encontros, Samara ajudou os moradores a desenvolver, com ripas de caixas de feira, o protótipo de uma lata de lixo adequada à realidade do Alemão. Para conhecer melhor essa realidade e usá-la em seu trabalho, a designer, que já morou em bairros como Flamengo e Tijuca, se mudou em 2011 para uma favela não pacificada (que prefere não identificar) ao voltar de uma temporada de dois anos na Alemanha, onde fez um mestrado. Formada na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), da Uerj, e trabalhando com design estratégico na MJV Tecnologia e Inovação, onde presta consultoria para grandes empresas, Samara é uma das profissionais da área que ajuda a desenvolver o potencial social do design no Rio.
— As pessoas têm uma compreensão limitada do que é design. Normalmente, a atividade é vista como algo elitista, sofisticado e caríssimo, ligado à forma — analisa Izabel Oliveira, coordenadora da graduação do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, onde, desde o primeiro período, os alunos vão a campo a fim de, em conjunto com a comunidade, observar e buscar soluções para os problemas que detectam. — Eles usam técnicas, como jogos de palavras e desenhos, para isso. Foi a professora Ana Branco quem introduziu aqui o que começou a ser chamado de design social e está no DNA do curso. Acabou virando uma marca da PUC. Houve uma discussão sobre esse nome, porque alguns alegavam que todo design é social. Então, passamos a chamar de design em parceria.

Social ou em parceria, o design não se acomoda. Sobe morros, preocupa-se com sustentabilidade, pensa em maneiras alternativas e mais viáveis de construir habitações ou combater problemas que vão do frio à seca. Como Samara, que percebeu que o papel do designer na sociedade inclui atuar em áreas deixadas de lado pela indústria, levando ideias que resultem em melhoria da qualidade de vida, renda e inclusão social.
— Após dois anos fora, voltei cheia de ideias. Desconstruí o que aprendi de design. Já frequentava favelas, porque sou capoeirista. Mas morar em uma é totalmente diferente de frequentar. Lá, sou uma pessoa comum e vivo uma vida normal. Depois, o pessoal da Mecca Rede me chamou para trabalhar com compartilhamento de tecnologias sociais no Alemão. Vou lá toda semana. As sessões são muito informais. Fazemos o design aberto, sem ser impositivo. Meu objetivo não é gerar soluções sozinha, mas extrair o potencial das pessoas para que criem as próprias soluções. Não só o que diz respeito a um produto em si, mas também o intangível — diz Samara, dando como exemplo o caso de um cordelista do Alemão que queria fazer uma livraria em sua casa. — Hoje, esse projeto está se transformando num circuito de cordel e numa biblioteca social.
Para Zoy Anastassakis, designer com mestrado e doutorado em antropologia, que se dedica ao design social e dá aulas na PUC-Rio e na Esdi, casos assim fortalecem a profissão:
— O design está grande. Antes, cabia na Zona Sul. Mas hoje, na PUC, por exemplo, 30% dos alunos são bolsistas. Na Uerj, 45% entraram através de cotas. Está batendo na porta do estudante que mora em Caxias e em bairros do subúrbio a necessidade de mercado. Se a economia está andando, e o Rio está dentro da chamada comunidade criativa, estão surgindo outros caminhos. Uma aluna minha de Nova Iguaçu, por exemplo, está mapeando as atividades culturais da cidade. Onde está o design nisso? Ele ajuda na manipulação dos dados. Os achados da pesquisa estão ganhando identidade visual e sendo colocados num infográfico.

Já Pedro Themoteo e sua equipe encontraram uma fórmula de fazer design social na Matéria Brasil, uma espécie de oficina aceleradora de negócios, onde cerca de 60 pessoas desenvolvem diferentes projetos. Eles criaram uma “materioteca”, banco de dados que já reúne 800 materiais sustentáveis, do couro de pirarucu (pescado de forma sazonal na Amazônia) ao PET reciclado.
— Nossa área é a engenharia de materiais. Temos desde os superartesanais até os supermanufaturados. Cento e cinquenta deles já estão disponíveis para consulta em nosso site. Nossa ideia é trabalhar com toda a cadeia de empreendedorismo social, para um mercado que não tem acesso a isso — explica Pedro, antes de contar que a Matéria Brasil está desenvolvendo os novos quiosques que serão instalados na Lapa pela prefeitura, formados por dois carrinhos que se encaixam, com sistema hidráulico e elétrico, sem botijão. — Fazer design social é desenvolver produtos para camadas menos favorecidas. A barraca da Lapa é um exemplo disso. São 82 barraqueiros, mas você atinge também as 50 mil pessoas que frequentam a Lapa num sábado à noite, por exemplo, e ganham serviço de qualidade. Para confeccioná-las, utilizamos madeira de demolição (ou certificada), alumínio (o Brasil é um dos países que mais recicla), polipropileno (plástico reciclável) e chapa de fibra de coco para o balcão.

A designer Marina Nicolaiewsky também usou matérias-primas sustentáveis simples, de fácil obtenção e baixo custo, adequadas ao contexto social das artesãs com quem foi trabalhar na Amazônia, no projeto Coletivo Artes, entre outubro de 2012 e agosto de 2013. A iniciativa, do Instituto Coca-Cola, em parceria com a Rede Asta e a também designer Monica Carvalho, transformou-se em realidade às margens do Rio Negro e em Parintins. O objetivo era transformar a vida de 30 mulheres e cinco comunidades, com renda gerada por produtos artesanais feitos com materiais naturais e embalagens reaproveitadas. Elas receberam capacitação e criaram coleções de biojoias e outros objetos para a Asta.
— O primeiro catálogo, com produtos do Rio Negro, já saiu. O forte é a biojoia, utilizando sementes e fibras da região, além de materiais recicláveis, como partes de garrafas PET (lacres e tampinhas) e de latinhas (lacres e fundo). O segundo, de Parintins, sai agora, para o Natal. Lá também usamos couro com lacre de latinhas. Fizemos bolsas, como as de pirarupet (com aparência de escama de pirarucu) e jogos de tabuleiro — conta Marina. — As coleções são elaboradas com base em tendências da estação, aposta de cores, datas festivas.... Mandamos inspirações para elas. Umas já têm ideias que se encaixam no que a Rede Asta quer, mas outras precisam de orientação. Fazemos oficinas para isso. Além da questão ecológica, tudo funciona nos moldes da economia solidária. A maior parte do valor vai para o artesão. A Asta compra dele e revende, arcando com os riscos do negócio.